Não, não ganhei um de presente da AOC para fazer seu review, mas bem que poderia ser o caso, afinal, cavalo dado… Apesar de gostar e trabalhar com tecnologia, não sou tão famoso como a competente Garota sem fio e também não me considero um aficcionado por apetrechos tecnológicos. Mas este aparelho me impressionou a ponto de querer escrever um pouco sobre minhas percepções a seu respeito e, quem sabe, ser útil para alguém que esteja procurando alguma opinião sobre televisores portáteis que captem sinal digital para o único grande objetivo desta época de 2010: A Copa do Mundo.
Continuar lendo
Por que não sou adventista?
Olha, essa é uma pergunta cuja resposta pensei que nunca precisaria explicar declarativamente afinal, o meu conceito de liberdade me permite – e também qualquer ser humano – crer, corroborar ou filiar-me a qualquer – ou nenhum – movimento religioso que desejar. Eu escolhi ficar com o “nenhum” pois fatos, leituras, vivências e decisões me mostraram que não preciso estar preso a nenhuma instituição para estar perto ou longe de Deus (por mais óbvio que esta afirmação seja). E algumas destas vivências me mostraram que ficar dentro de uma instituição pode até ser perigoso pela possível existência de uma sensação enganosa de que está tudo bem, quando, muitas vezes, pode não estar. Afinal, quem é imune à acomodação inerente a um banhinho nem muito quente nem muito frio… assim, bem morninho?
Continuar lendo
A Tok&Stok e seu infindável descaso com o consumidor
Por que será que uma empresa de renome como a Tok & Stok simplesmente se recusa a agir da forma correta com um consumidor? Eis a resposta que tenho procurado nas últimas semanas. Nada como escrever para desabafar, analisar o fato e, principalmente, alertar outros prováveis compradores para que não venham a passar pela mesma experiência pela qual passei.
Logo nos primeiros meses após meu casamento fui com minha esposa à loja da Tok & Stok na Avenida Ibirapuera, em São Paulo, para procurar um armário para nossa cozinha. Encontramos uma bela cozinha modular exposta na loja e nos apaixonamos de cara por ela. Branca, com as portas de vidro. Linda. Como nossa cozinha era menor do que a apresentada na loja, iríamos comprar apenas alguns módulos. Começamos a nos aventurar com a calculadora e as centenas de etiquetas presentes em cada pedaço de madeira (quem já foi à Tok & Stok sabe como é) para advinhar qual seria o preço do que desejávamos. Após perceber que mesmo as poucas peças que desejávamos ficariam com um preço salgado, decidimos por comprar apenas um módulo naquele momento. Um armário suspenso que utilizaríamos para colocar pratos, copos e outros presentes recebidos de amigos e padrinhos. Apesar de doer o bolso (apenas aquele módulo suspenso, com duas portas, tinha o preço de cerca de 60% de algumas cozinhas completas, sem hiperbolizar) decidimos pela compra. Após terminarmos de pagar iríamos ao próximo. O brasileiro e esta mania de parcelar as coisas…
Alguns meses se passaram, a aguardada última parcela chega, é paga e.. voilà! Já podemos comprar o próximo módulo. Afinal, precisamos de mais espaço na cozinha para guardar as outras coisas, principalmente aquelas que ainda estão nas caixas recebidas na época do casamento.
Em um belo domingo ensolarado voltamos à loja para procurar a próxima compra. Decidimos que, depois do armário suspenso, era a vez de um armário. Será que eles ainda produzem os móveis com este design? Foi um risco que corremos caso aquela cozinha saísse de produção. Felizmente não foi difícil encontrar. Deve ter boa saída. Vimos o armário, analisamos o espaço interno e, após alguns momentos, um vendedor aproximou-se perguntando se tínhamos alguma dúvida:
- Boa tarde, possso ajudar?
- Sim, nós compramos há algum tempo um dos módulos suspensos, com duas portas, e agora queríamos ver este armário. O preço é a soma destas etiquetas?
- Isso mesmo. Considerem o valor “com instalação” pois a equipe da Tok & Stok vai à sua residência e instala o móvel.
- Perfeito. Ah.. Ele acompanha estes pés?
- Sim, você pode instalá-lo na parede ou, se preferir, pode deixar com os pés.
Neste momento olho para a esposa e em uma rápida troca de palavras decidimos por utilizar os pés, sem pregá-lo na parede, afinal, o apartamento em que morávamos era alugado e não pretendíamos ficar muito tempo lá. Também não gostaríamos de ficar furando a parede e, principalmente, o móvel. E um outro motivo inusitado. Quando solteira, minha esposa quase perdeu sua linda cachorrinha, a Basset Hound Meggy, pois ela dormia sob um armário como esses (obviamente não com o selo de qualidade Tok & Stok) preso à parede. O que definiu sua salvação foi que, no momento em que o móvel caiu, ela não estava embaixo dele.
- Perfeito. Vamos levar este módulo.
Alguns momentos preenchendo formulários, fornecendo número do cartão de crédito e – ao som de uma caixa registradora (risos) – mais seis parcelinhas em prol da felicidade marital (mais risos). Mulheres adoram uma cozinha linda. Obviamente que eu também tinha gostado muito dela.
A primeira desagradável surpresa veio no primeiro dia após a instalação do módulo. Um de seus pés simplesmente quebrou: ao tentar abrir o armário para guardar uns copos, ele apresenta sinais de labirintite, sem conseguir se equilibrar. Ligamos para a Tok & Stok, que marcou uma data para análise técnica. Após a tal da análise, marca-se outro dia para o conserto. Nesse ínterim entre a visita técnica e a marcação do conserto recebemos uma interessante oportunidade para nos mudarmos para uma casa. O Charlie (nosso lindo West Highland White Terrier) já estava com três meses, crescendo rápido, e seria ótimo para nós e para ele ter o espaço de uma casa para poder se divertir.
Com a mudança de planos ligo para a Tok & Stok, informo a situação e peço que façam o conserto na nova residência. Ponderei a situação e achei coerente consertar o pé do armário na nova casa, afinal, ele seria transportado dentro de poucos dias. Disse à Tok & Stok que ligaria assim que tivesse mudado. Com as dores de cabeça inerentes à mudança passadas, ligo para a loja e marco a data para o conserto. Uma equipe foi à minha casa, consertou o pé quebrado e, pronto, tudo resolvido.
Agora, assim como fazem filmes e novelas, utilizarei uma expressão para situar o leitor: “Seis meses depois…”
Em uma calma noite em São Paulo, voltando para casa após uma hora do sagrado treino semanal de Krav Magá, recebo uma ligação de minha esposa. Sua voz indicava algo não muito bom:
- Amor, o armário caiu! Quebrou tudo!
- Que armário?! O do quarto?
- Não, não é o guarda-roupas! É o armário da cozinha, da Tok & Stok!
- Mas como?
(E eu nessa hora pensava que fazia meros dois dias que havia pago a última parcela dele)
- Estava na sala vendo tevê quando levei o maior susto da minha vida. Ele tombou pra frente e tudo que estava dentro quebrou!
- Fique calma. Daqui a pouco estarei aí.
Após registrar o incidente em fotos, acessei o web site da Tok & Stok e li a primeira boa notícia: havia cobertura da garantia. Acalmei minha esposa e, no dia seguinte, liguei para a loja. Assim como o atendimento à época do pé quebrado, a Tok & Stok foi muito pronta em agendar uma data para análise técnica. Manhã chuvosa, acordo atrasado para ir ao trabalho e resolvo aguardar a equipe para presenciar a tal da análise. Os dois rapazes olham, veem o “estrago” feito e me perguntam:
- Não estava presa na parede?
- Não.
- Mas este móvel precisa ser fixo na parede.
- Quando o comprei o vendedor me disse que era opcional, ou seja, eu poderia tanto utilizar os quatro pés ou prendê-lo na parede.
- … (troca de olhares entre os técnicos)
Nesta hora já imaginei que o pior viria. Intuição? Talvez. Tentei dizer que ainda havia uma caixa grande de papelão cheia de cacos das louças quebradas mas disseram que isso não era com eles. Ofereci um guaraná ou copo de água para os dois. Não aceitaram. Agradeci, me disseram que receberia uma ligação com o parecer da Tok & Stok e… tenha um bom dia.
Passam-se vários dias e não recebo ligação da Tok & Stok. Mais outros dias se passam e finalmente chega a ligação.
“Senhor, gostaria de informar que a Tok & Stok não cobrirá os danos causados ao móvel porque o móvel não foi instalado de forma correta”.
Não é possível… Será que os caras não entenderam nada do que eu disse? Pelo telefone dei um copiar e colar no diálogo que tive com os técnicos e solicitei uma reanálise. Já nervoso com a situação disse que esperava uma posição mais correta de uma loja com a reputação da Tok & Stok. Disse que desejava resolver esta situação de forma simples e rápida e que, se fosse necessário, buscaria os meios legais e burocráticos para ser ressarcido do prejuízo que não havia sido causado por mim.
Creio que está bem claro que se estou escrevendo este minucioso post sobre a questão é porque o final – até o momento – não é feliz. Não mesmo. Após a reanálise, foi a vez deles de dar o copiar e colar na ligação anterior. É, só rindo pra não chorar. Um funcionário que a) não sabia uma informação crucial para o bom funcionamento do produto ou b) esqueceu-se de informar o consumidor de um “mero” detalhe. Veredicto: o consumidor é o culpado. E olha que eu ainda insisti mas foi em vão. Afinal, ela era apenas a informante de uma decisão já tormada pela última instância da loja.
Prezada Tok & Stok, você diz que eu sabia desta informação e simplesmente ‘não quis instalar o armário na parede. Se esta era uma informação tão importante, vital para que o produto durasse mais de seis meses, você acha que eu, que não sou rico, iria arriscar jogar no lixo mil e seiscentos reais pagos em seis longas e demoradas vezes? Outra coisa, se esta informação fosse tão óbvia, eu deveria acreditar que toda mesa e cadeira produzidas pela Tok & Stok também deveriam ser presas à parede, certo? Afinal, elas também tem quatro pés. Os pés do armário são somente decorativos ou meros coadjuvantes, para os outros móveis da cozinha não o chamarem de aleijadinho?
De minha parte, primeiramente alguns tweets para alertar a comunidade web. Em seguida decidi entrar em contato com um advogado para receber orientação quanto aos próximos passos. E, agora, enquanto faço a juntada de documentos, notas fiscais, fotos etc, decidi escrever um post com os objetivos mencionados no primeiro parágrafo.
Já me sinto mais leve. Espero que o juizado de pequenas causas faça sua parte. Independentemente do resultado, algumas decisões foram tomadas e fatos consumados:
- A Tok & Stok perdeu um cliente. Apesar de produzir o trabalho de excelentes designers brasileiros de produto, imagino que a loja utilize produtos de baixa qualidade ou simplesmente não prepara seus vendedores corretamente. Bastava fazer o correto e eles teriam um cliente que passou por maus momentos com a quebra de um móvel e outras dezenas que estavam dentro dele mas, ao final, agradeceu à loja por reconhecer uma falha no produto ou em seu atendimento. O que eles têm agora é alguém que fará questão de não recomendar seus produtos.
- Pela importância da loja e seus públicos-alvo (A e B), imagino que eles não sentirão saudades de mim e muito menos me enviarão um cartão de natal. Mas suas campanhas via e-mail não páram de chegar à minha caixa de entrada. De qualquer forma, espero que algumas pessoas encontrem este post ao digitar “Tok & Stok” no Google. Aliás, hoje fiz isso e na primeira página de resultados já vi que não estou sozinho: O mau atendimento da Tok & Stok, Rafael reclama da Loja TOK STOK, TOK&STOK: quero minha mesa consertada!!!!, Garantia não cumprida e muitos outros textos pela Internet. Este último teve um fim bem típico da loja. A garantia é fictícia. Eles sempre arranjam um jeito de culpar a vítima. Veja só o que o comentário final do consumidor: “Mais uma vez a empresa demonstrou não ter a menor consideração com o cliente, pois disse que havia reaberto a solicitação enquanto que, na verdade, ela colocou o número de protocolo já anteriormente encerrado sem dar nenhum retorno ao cliente. Pensem 10x antes de comprar lá, já que a garantia da loja não é cumprida se não forem tomadas medidas legais junto aos órgãos de fiscalização dos direitos do consumidor“.
- Se ao menos um pensar duas vezes antes de comprar lá já valeu a pena (Pela mensagem do cliente acima, acho melhor pensar no mínimo dez mesmo!).
- Aprendi que devo procurar mais pelo BBB (Bom, bonito e barato). E não o bonito, ruim e caríssimo. Enquanto eu escrevia este texto lembrei-me de um caso interessante. Um marceneiro foi à minha casa alguns meses antes do incidente arrumar a porta do armário do banheiro. Quando passou pela cozinha perguntou onde e quanto eu havia pago pelo armário. Ao dizer o valor ele sorriu negativamente e me disse que faria um igual pela metade do preço. Ao ver o portfolio do marceneiro, um cara humilde e conhecido pela vizinhança, me arrependi de não tê-lo conhecido antes. “E olha que faço com madeira boa, não isso!” Disse enquanto dava umas batidinhas na parte interna do armário.
E, para finalizar, minha sugestão à loja. Por que não entrar no ramo funerário? Os públicos A e B são exigentes e creio que a qualidade do material vendido pela empresa adequar-se-ia muito bem às demandas por palitós de madeira e saunas for (dead) men com aquele design inigualável, com a cara clean que só a Tok&Stok tem. Seriam os típicos sepulcros caiados. Lindos por fora mas, por dentro… pois é. A vovó sempre vem com as palavras de sabedoria: “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”.
Minha terra tinha palmeiras onde cantava o Sabiá
Manchetes deste início de semana noticiam a guerra entre traficantes e polícia no Rio de Janeiro. Quando a notícia é chamativa e envolve fatos inéditos ou quentes (neste caso o abatimento de um helicóptero da polícia e consequente morte de três policiais) o assunto toma proporções globais. Ainda mais quando o acontecimento se dá apenas alguns dias após a eleição da cidade maravilhosa como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Bandidos comemoram uma vitória cinematográfica ao mesmo tempo em que já temem os próximos passos da polícia, que usa palavras politicamente corretas para jurar vingança. A população, por seu lado, se encasula quando pode e tenta (sobre)viver no meio desta infindável guerra.
Não sou jornalista investigativo e muito menos um analista de estatísticas de ações efetuadas pelos governos federal, estadual e municipal nos últimos anos em prol da população carioca. Apenas a sensação que tenho é a de que nada muda e o assunto continua a ser tratado como de costume pelas autoridades, ou seja, enquanto a mídia abre grande espaço para o problema, elas mantêm o velho papo de “limparemos a sujeira“, ou “isso não se muda da noite para o dia” e ditam estatísticas de progressos (?!) no combate à violência. E basta o dólar se desvalorizar mais um pouco ou daqui a dois dias ser o último capítulo da novela das oito que aquela tão grande preocupação se esvai. Basta pressionar a descarga da memória pública.
O que sei é que sou um cidadão brasileiro, filho de carioca, quem passou praticamente todas as férias escolares de sua primeira década de vida nesta cidade hoje na mira das manchetes. Férias repletas de boas lembranças, não importa onde eu estivesse. Meados da década de 80, uma parte de minha família tinha uma linda mansão em uma tranquila rua de Jacarepaguá. Uma invejável alameda cercada por verdes morros, típico cenário do Salmo 23:2.
Assim como nas novelas de Manoel Carlos, minha família tinha seus núcleos. O núcleo “ZN” se distribuía entre uma adorável tia e sua família, quase vizinhos da família do Ronaldo Fenômeno em Bento Ribeiro, e meus avós e muitos tios espalhados em suas humildes casas nas ruas e morros da zona norte carioca.
Gostava muito de estar em Jacarepaguá, afinal, lá tinha piscina e uma quadra dentro de casa para me divertir com meus queridos primos mas sempre preferi estar junto de minha mãe visitando os parentes da zona norte. Assim, pegava o ônibus com ela e iniciava o delicioso passeio que passava por lugares com nomes legais e engraçados: Bento Ribeiro, Campo Grande, Meier, Pavuna, Rocha Miranda, Coelho Neto, Cascadura etc. Adorava ver meu tio Alcides cutucando a árvore para pegar jaca para comermos. Adorava subir nas lajes com meus primos para soltar pipa e depois descer e comer um apetitoso almoço na casa do tio Jorge. Jogar bola no asfalto com o chão pelando, sendo chamado de Paulistinha por vizinhos de meus primos. A casa de meu avô, no alto do morro Jorge Turco, era maravilhosa. Lá ficava a “Vendinha do Vico”, onde ele passava o dia inteiro tratando bem seus fiéis clientes, cuidando das dezenas de passarinhos que ele criava e me ensinando a separar o troco. Passava horas brincando com os gatinhos de minha avó e sempre que eu voltava para lá tinha um bichinho novo. Um cachorrinho quase morto que ela havia resgatado, uma gatinha prenha que não tinha onde achar repouso. As galinhas gordas que ele criava e sumiam quando eu voltava pra lá. Só depois de muito tempo descobri que elas tinham sido aquele almoço delicioso. Aliás, o mesmo aconteceu com aquele leitãozinho bonitinho que ficava por lá. Eu adorava tudo isso. Tios trabalhadores, todos! Apesar de, sim, já haver muitas histórias de criminalidade na região, o casal Álvaro e Alice criou muito bem todos os seus filhos e formou homens e mulheres de caráter. Que orgulho tenho disso!
Foram muitas férias assim, vividas intensamente por um menino que soube enxergar felicidade no meio da riqueza e no meio da pobreza. Gente digna. Gente boa de Deus que era feliz e celebrava a vida diariamente.
Mas o tempo passou e, no início da década de 90, em mais uma viagem de fim de ano com meus pais e irmão para visitar os avós, uma imagem diferente. Ao ver um menino poucos anos mais velho que eu, tive um diálogo com meu pai mais ou menos assim:
- Pai, ele está com uma arma de verdade?
- Filho, fique quietinho aí no banco. Sente-se direito.
- Mas é de verdade mesmo?
- Sim, filho. Agora fique quietinho.
Percebi em meu pai um semblante diferente, pesado. Em poucos instantes meu avô saiu, nos ajudou com as malas no carro e nos “protegeu” para entrar em sua casa. Em minha ingenuidade não poderia imaginar o que se passara na cabeça de meu pai. Com seus dois filhos ali, um carro novo com placa de São Paulo, bandidos a alguns metros do carro… Este episódio se passou há mais de quinze anos e foi a última vez em que a família viajou junta para visitar meus queridos avós. Onde estará hoje aquele menino com a metralhadora e várias caixas de fogos de artifícios próximas a ele? Se eu considerar as estatísticas as previsões são fatais, assim como fatal foi o câncer que matou meu querido avô.
Durante almoço com colegas de trabalho nesta semana assistimos na televisão às cenas do helicóptero da polícia caindo em chamas. Ao invés de apenas comentar o fato ocorrido e a realidade da insegurança pública no Rio de Janeiro indaguei à mesa: “qual a solução para isso?”
As autoridades atuais insistem em culpar governos anteriores e louvar as conquistas de sua gestão. Eu só vejo a mesma coisa que via desde a década de 80, quando era apenas um garoto. A diferença é que a vida nos morros fica sempre um pouco pior. Vejo que o vizinho de meu primo que me chamava de Paulistinha morreu novo, fuzilado por traficantes. Aliás, ele tornou-se um deles. Vejo falta de oportunidades, vejo decisões erradas em todos os lados, vejo vítimas se transformando em algozes e vice-versa. Vejo que se buscar no Google pelo nome do morro morada de meus avós só encontrarei notícias ruins. A polícia teme subir, a população local teme descer e os traficantes descem e sobem livremente. Nenhuma mudança a curto nem a longo prazo.
É difícil, muito difícil, para a população entender o que se passa na vida das pessoas que vivem no meio desta guerra civil. Um conflito entre suas raízes e as possibilidades externas, a falta de oportunidades, o descaso, o medo de sair de casa. As decisões erradas. As perdas e as consequências. Fugir ou ficar? São tantas cartas descartadas. Infelizmente não tenho respostas. Pedro Paulo Soares Pereira, o Mano Brown, apresentou um lado da história em “A fórmula mágica da paz“. Fez-me refletir mas, assim como ele, ainda não encontrei esta fórmula mágica.
As verdes palmeiras deram lugar a gris barracos. O som do sabiá deu lugar à sequidão de tiros cujo destino é a dor. A canção do exílio é entoada no imperfeito por pessoas exiladas dentro de seu próprio lar.
Só sei que faz quinze anos não posso visitar minha avó.
Como saber se você é um crente-religioso
Hoje estava pensando nas características inerentes à atitude cristã-evangélica-religiosa atual. Entretanto, refiro-me às atitudes comuns, de gente sincera que, sem perceber, está agindo por costume e tradição, e não aos mercadores, safados e gananciosos da fé que fazem do santuário uma feira livre. Estes do segundo grupo já são quantativamente e qualitativamente “dissecados” em outros blogs como o Blog do Roberto Soares, Caminhando na Graça, de graça!, Genizah, Púlpito Cristão e outros.
Aí penso um pouco aqui, mais um pouquinho acolá e sem demora já tenho uma lista de coisas banais que, sem perceber, são parte do cotidiano de muita gente. Eu mesmo já tive de sair na mão com muitos destes itens. E, também, talvez tenha de embater alguns outros no caminho da vida.
Obviamente esta enumeração apresenta somente a minha opinião sobre este perfil. Objetivo rotular alguma pessoa específica? Pas du tout! Apenas segue como uma reflexão e admoestação sob meus olhar quanto à atitude cristã. Gosto sempre de me lembrar que o religioso é aquele ser repugnante, convencido e presunçoso que sempre pensa ter a verdade e seu lado, que passa e finge que não vê o ferido e é aquele que, se puder, dá uma aula de religião pra Jesus. Então, se eu me dedicar o máximo que puder para não me assemelhar em nada e este tipo, melhor.
Vamos então às quinze características do crente-religioso.
- Você fica irritado quando alguém, na igreja, termina a oração sem falar “Em nome de Jesus” e acha que, devido a isso, as palavras não “passaram do teto”.
- Você não poupa forças para discutir e provar que a forma de batismo correta é a X e não a Y.
- Ser frequentador de uma igreja faz de você, automaticamente, luz do mundo.
- Você dá mais valor ao “está escrito” do que ao “está dito” e “está consumado”.
- Você chama de irmão qualquer pessoa que passar na sua frente por mais que nunca o tenha visto e nunca mais o verá. Ah, e se daqui a alguns poucos minutos você se esbarrar com ele novamente, vai chamá-lo novamente de irmão e não terá se lembrado que era o mesmo com quem falou ali atrás.
- Você fica feliz da vida, sente um prazer enorme e vem um fôlego inacabável quando alguém fala mal da sua religião. Afinal, se estou sendo perseguido é porque estou no caminho certo…
- …com este fôlego citado acima você tem forças para defender, com unhas e dentes, todas as doutrinas da sua igreja.
- Deus veste a camisa da sua igreja.
- Você fica burro. Explico. Você não sabe o porquê de muitas coisas que crê e pratica. É assim porque é assim. O pastor falou, o “profeta” disse, li num livro, meu pai me disse etc. Ai de quem começar a fazer pergunta.
- Se você for dos mais espertos, que não se encaixa no item anterior, adora um papo-cabeça para defender sua bandeira: “Vou destruir as ideias desse cara”.
- Você considera a Bíblia como um manual infalível em que tudo deve se encaixar ipsis literis na sua vida, ou seja, você não sabe como, mas dá um jeito (ou pensa que dá) de conciliar “olho por olho” com a “outra face”, lei e graça e, pra atingir a redenção, enlouquece na tentativa de andar na linha para não perder a salvação. Você vira um exímil malabarista da vida.
- Se alguém falar pra você que a Bíblia não é a Palavra de Deus e que sim Jesus Cristo é a Palavra de Deus… é herege.
- Você tem vergonha de falar de Jesus para as pessoas. Mas, se calhar de cair no seu colo a situação de alguém que tem sede dEle, você fala pra ela visitar a sua igreja, dá um panfletinho e, se não esquecer, manda um “vá com Je..Deus” quando se despedir. Afinal, “Deus” é mais genérico que Jesus e mais fácil de falar.
- Quando alguém pede oração por “algum irmão que está passando por um problema” você tenta resistir mas é mais forte que você a vontade de saber todos os detalhes dos problemas do “irmão”.
- Frequentemente você se esquece de orar e se predispor a ajudar alguém que tenha feito alguma m#rda no caminhar da vida mas raramente se esquece de julgar o autor do bolo fecal.
Se você não tiver nenhuma das características apresentadas acima, que bom! Você passou no teste da não-religiosidade. Se tiver, não se preocupe tanto. Você não é o único. E também não está condenado por causa disso (risos). Muita gente boa passa e passou por isso.
Desculpe-me pelo conteúdo do último item mas é um dos que mais me irrita. Afinal, como diria o filósofo, quem não caga?
Fazer o bem por amor. Estou no céu.
Recomendo a música Amor incondicional, do Jorge Camargo, durante a leitura deste post.
Well, well… Esses últimos sete dias foram um turbilhão físico e mental para mim e minha esposa. Passamos por um corredor polonês de sentimentos e sensações. Dó, pena, amor, raiva, muita raiva, cansaço e, agora começa a vir a saudade. Confesso que os principais destes, que estavam sempre brigando pela primeira colocação, eram raiva e amor. Mas, para resumir, enquanto começo a escrever este post, só penso em seu título. Realmente estive no céu durante esses dias. E foi bom pra cachorro. Para começar, digo: amor incondicional é coisa pra macho.
Domingo, dia dos pais, acordo e me arrumo para buscar o velho para tomarmos um café da manhã em Monte Sião. Saio de casa e, na primeira esquina vejo cinco filhotinhos de vira-lata sob uma caçamba de lixo desesperados com a situação. Os coitados sentem-se protegidos pela caçamba ao mesmo tempo que têm pavor ao ouvi-la tremer com a passagem dos carros e caminhões que descem a rua rapidamente.
Meu Deus! Como alguém tem coragem de abandonar bichinhos dessa forma?! Como já no Pavablog: faltam-me palavras, sobram-me palavrões… Corro para buscar o velho enquanto ligo para a esposa e peço para ela dar uma olhada neles. Quando volto encontro a Letícia por perto quase chorando com a cena. Cinco minutos depois eles estavam dentro de minha casa. E o meu velho, aos 70 anos e celebrando mais um Dia dos pais, ganhou de presente um jato de medo de um dos filhotinhos em seu blazer. Não entendeu? Sim, um dos bichinhos fez cocô de medo na roupa de meu pai… Pai é pai, avô é avô.
Voltando ao papo de amor incondicional, naquele momento já me senti assim. Bati o olho neles e já me senti apegado, atrelado e arraigado a todos. Meu coração já se sentia obrigado a fazer tudo que eu pudesse por eles. Um misto da alegria do pai do pródigo com a sede de justiça de Pedro ao cortar a orelha de Malco se apoderou de mim. Mas a raiva não teria muito espaço neste momento. Era hora de atitude.
Com a volúpia com que comiam a ração do Charlie e bebiam água, parecia que fazia muitos dias que não comiam. Meu Deus! Primeiros passos, preparar o quartinho para eles ficarem, ir à Cobasi comprar vermífugo, anti-pulgas e anti-carrapatos… Drontal, Vermivet, Cálcio, limpar a casa, saco extra de ração, limpar o pátio, limpar o pátio e limpar o pátio. Como esses bichinhos cagam! rsrsrs
Resumindo a história, um deles, um protótipo de cachorro, uma fêmea com poucos centímetros que só sabia abraçar a Letícia resolveu nos adotar como pais. A nova filha adotada - Olívia - tinha tanta sede quando chegou que foi batizada por uma aspersão quase imersiva.
O novo desafio era achar um lar para os outros. Família, contatos de amigos, emails em massa, panfletos distribuídos na região, álbum no Flickr, Facebook e muitos tweets e re-tweets. “Onlinemente” não houve retornos mas duas pessoas no trabalho da Letícia ficaram sensibilizadas com a história e cada uma levou um para casa. Que alegria!
O estafante trabalho que nos foi exigido começara a dar seus frutos. Era a sensação do comprido dever cumprido!
Agora, duas semanas se passaram e continuamos a cuidar dos dois filhotes que ainda estão conosco. Será ainda mais difícil o adeus.
Para mim, uma experiência extremamente cansativa porém instantaneamente gratificante. É quando chego ao “fazer o bem por amor”. Será que estou sendo redundante? É possível fazê-lo sem amar? Só sei que valeu a pena e estou saindo muito renovado desta experiência. Vi que existe dentro de cada ser humano muita força guardada para fazer o bem por graça, com graça, simplesmente de graça.
“De graça recebestes, de graça dai”
Também senti que ainda tenho muitos defeitos. Está difícil pensar mansamente a respeito das pessoas que abandonaram os filhotes. Essa de não impor condições para o amor é a new level. Um dia chego lá. Sério.
Amar incondicionalmente é mesmo coisa pra macho. E Deus é o macho-mor!
Minha abordagem espiritual sobre a morte de Michael Jackson
Por onde começar esta reflexão? Vejo-a mais como uma forma de desabafar após ler muitos textos pela Internet escritos por irmãos em Cristo. Impressionantemente, a morte de Michael Jackson causou um impacto enorme na humanidade e, pelo que li dentre estes textos, o sentimento mais comum foi o de profunda decepção, superando o da própria tristeza. Eu explico o porquê de meu desabafo.
Em 1987 ganhei de meu pai o disco Thriller. Ele já era sucesso absoluto desde o ano de meu nascimento (1982) mas, somente aos cinco anos que conheci o som de MJ. Até hoje, nas rodas em família, sou lembrado de como pulava e dançava imitando o “rei do pop” e insistindo para ouvir mais um pouco do “Maca Jeca”. Os anos se passaram e sempre que ele lançava um novo álbum eu escutava para ver se gostava e, com isso, admirava um pouco mais a qualidade de suas músicas e sua capacidade de entreter e surpreender o mundo com sua voz, suas composições, sua dança e sua… mutação.
Feito o background, voltamos a 2009, nestes primeiros dias após sua morte. No excelente blog de Não abro mão da graça, de Márcia Gizella, li o post Ele precisava de Deus, mas nunca entendeu isso. Apesar de considerar o título muito pertinente e perceber sua sinceridade, uma frase me incomodou: “Lamento por ele não ter morrido em Cristo”. No Inforgospel leio Michael Jackson, não há segunda chance. Novamente, senti a tristeza do escritor mas me incomodou a afirmação – quase que dogmática – de que MJ disperdiçara sua única (!) chance. Respeito demais os sentimentos destas pessoas pois sei que elas choraram sua morte e lamentaram o fato de ele não ter se tornado um “mensageiro oficial” do Evangelho na Terra, mas senti o desejo de escrever que penso de forma completamente diferente das que tenho visto na Internet.
Em minha reflexão sobre o tema vi como o pensamento religioso está arraigado nas mentes das pessoas. Como essas pessoas sabem que MJ não morreu em Cristo? Como alguém pode saber que ele ‘não agarrou’ a salvação ou que ele não tenha aproveitado sua chance? Então, para estas perguntas vem uma enchurrada de versículos e cartilhas do tipo “Como saber se fulano foi para o céu”, “índios vão para o céu?”, “meu avô foi salvo?”… Pois é, crente adora essas perguntas. Sutilmente as obras ganham força e sobrepujam a graça. E olha que, mesmo se eu imaginasse um mundo em que a balança da graça fosse esquecida e só as obras fossem medidas, creio que Michael Jackson estaria muito bem também… Considerando suas muitas ações filantrópicas, seu impacto positivo em milhões de mentes e as letras de muitas de suas músicas que clamavam pelo amor ao planeta e aos humanos, TEQUEL não seria uma palavra dita a ele.
Com a invasão de textos com essa abordagem eu me irritei um pouco e enviei um comentário anônimo para o blog da Márcia. Deveria ter me identificado mas não quis criar atritos e/ou discussões em vão. Enviei somente a pergunta do primeiro comentário: “Como você sabe que ele não morreu em Cristo?”. Ela me enviou duas respostas. Na primeira vi que foi apenas um erro de interpretação meu e que, na verdade, sua lamentação tinha sido pelo fato de não ter visto um MJ vivendo como um testemunho de uma real conversão, algo com que concordo plenamente. Seu segundo comentário veio com uma resposta bíblica em que novamente enxerguei o cunho religioso na leitura da Palavra. Enviei uma nova mensagem para ela mas esta não foi publicada (pode ter ocorrido um problema no envio) e, como não copiei o texto que enviei, perdi.
De qualquer forma, comento aqui neste espaço pessoal sobre o que penso. Primeiramente, o texto enviado (Romanos 10) é excelente e fortalece ainda mais minhas convicções. Aliás, o que mais li nos blogs e sites foi uma desobediência aos versículos 6 e 7 – “Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) ou: quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo.)”. Não consigo contar nos dedos o número de pessoas que o colocaram no abismo a partir do momento em que o TMZ anunciou sua morte. Não sou assessor de Deus para informar ao mundo se o ‘John Smith’ foi ou não para o ceú.
Neste décimo capítulo de Romanos existem dez interrogações. Por que as pessoas insistem em saber as respostas quanto coloca-se o nome de Michael Jackson como alvo destas indagações? Como alguém pode saber que ele não creu? Como alguém pode saber que ele não tenha morrido em Cristo? Por que fazer estas perguntas? Você acha que a salvação de uma pessoa está intrinsecamente ligada às suas ações durante a vida terrena, ao último ato realizado antes de morrer ou simplesmente à Graça de Deus (isso mesmo, Graça, de graça, gratuita)? Podemos definir seu destino pelo simples fato de supormos que ele não confessou com a boca? Um mudo na situação dele estaria ferrado então…
Isso é assunto ‘para mais de metro’. E, a partir daí, pode se chegar às muitas já conhecidas vãs discussões como o tipo de batismo correto, santificação de dias e festas e luas e sábados e ad infinitum. O Deus que acredito vai além do que qualquer mente possa pensar. É um Deus de amor, um Deus que convida e abre os braços. Um Deus que condena a falsidade religiosa (Lucas 13:23-28) e abre os braços para pecadores (Mateus 8:11, Lucas 13:29). Um Deus misericordioso que, mesmo tendo escolhido antes do nascimento, no ventre da mãe, pode fazer ouvir Sua voz no início de uma vida, na adolescência ou aos 50 anos, à beira da morte, deitado no chão de uma mansão cujo aluguel custa US$100 mil por mês, enquanto recebe massagens cardíacas. Um Deus que aceita mesmo sabendo que nós o rejeitaríamos sempre.
Hoje tive o privilégio de sentir a gostosa sensação de ler um texto com o qual entrei em perfeita sintonia. Ele foi escrito pelo querido Mario Persona, em seu blog O que respondi. É tão simples de entender e tão gracioso viver com esta simplicidade! Quando será que as pessoas entenderão o sentido real da palavra Graça?
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9)
Eu poderia escrever um extenso texto sobre meu pensamento mas creio que o texto do Mario está completo. Completíssimo.
Decidi que não quero fazer essas perguntas. Existem horas (e não são poucas) em que dizer “não sei” faz tão bem! Então, ao invés de decretar destinos ou até mesmo perguntar, prefiro ter a esperança de que um dia eu tenha o privilégio de encontrar MJ na eternidade. E, quem sabe, pedir pra ele me ensinar o moonwalk (rsrsrs).
A menina que roubava livros, de Markus Zusak
“Os seres humanos me assombram” – a morte.
Um excelente livro, com uma história comovente na qual a vida da menina Liesel Meminger é contada pela morte. Além do intrigante desenvolvimento da narração dos fatos que envolveram o período de 1939 a 1943 na vida da pequena Liesel, o autor apresenta o significado da 2ª Guerra Mundial para os moradores da pequena cidade de Molching, situada próxima de Munique, a caminho do campo de concentação de Dachau.
A leitura deste livro foi enriquecedora, uma vez que pude relembrar minhas antigas leituras referentes ao Terceiro Reich e suas consequências nefastas para o mundo. Pude repensar o sofrimento dos alemães que não simpatizavam com as palavras e não concordavam com as atitudes ou suportavam a loucura de Adolf Hitler. Pude chorar as lágrimas de perda de mães, pais e filhos.
Mas também pude ver a beleza na luta pela vida. A valorização do simples como o suficiente para a alegria em meio à tristeza. Pude perceber que é possível não ter nada mesmo tendo tudo e que o seu inverso é sublime. Liesel é prova disso.
Quanto aos quotes da história, gostei da inserção da música, das cores e sabores, da admiração de Rudy Steiner por Jesse Owens e de seu deboche com Hitler e dos sonhos de vitória em meio aos pesadelos de Max Vandenburg.
“Pessoalmente, gosto do céu cor de chocolate. Chocolate escuro, bem escuro. As pessoas dizem que ele condiz comigo. Mas procuro gostar de todas as cores que vejo o espectro inteiro. Um bilhão de sabores, mais ou menos, nenhum deles exatamente igual, e um céu para chupar devagarinho. Tira a contundência da tensão. Ajuda-me a relaxar.”
“Quando chegou a Molching, Liesel tinha ao menos uma vaga percepção de estar sendo salva, mas isso não servia de consolo. Se sua mãe a amava, por que deixá-la na porta de outra pessoa? Por quê? Por quê? Por quê? O fato de ela saber a resposta – nem que fosse no nível mais elementar – parecia não vir ao caso. Sua mãe estava sempre doente e nunca havia dinheiro para consertá-la. Liesel sabia. Mas isso não queria dizer que tivesse de aceitar. Por mais que lhe dissessem que a amavam, não havia nenhum reconhecimento de que a prova disso fosse o abandono.”
“Toda noite Liesel tinha pesadelos (…) Possivelmente, a única coisa boa advinda desses pesadelos era que eles traziam ao quarto Hans Hubermann, seu novo papai, para acalmá-la, acarinhá-la.”
“A Olimpíada. Os jogos de Hitler. Jesse Owens acabara de completar o revezamento 4×100 e conquistara sua quarta medalha de ouro. A história de que ele era subumano, por ser negro, e da recusa de Hitler a lhe apertar a mão foi alardeada pelo mundo afora. Até os alemães mais racistas ficaram admirados com os esforços de Owen, e a notícia de sua proeza vazou pelas brechas.”
“Os alemães adoravam queimar coisas. Lojas, sinagogas, Reichstags, casas, objetos pessoais, gente assassinada e, é claro, livros.”
“Era uma menina com uma montanha para escalar.”
“Você poderia dizer que as coisas foram fáceis para Liesel Meminger. E foram mesmo, em comparação com Max Vandenburg. É claro, o irmão praticamente morrera em seus braços. A mãe a havia abandonado. Mas qualquer coisa era melhor do que ser judeu.”
“Em anos vindouros, ele seria um doador de pão, não um ladrão – mais uma prova de como o ser humano é contraditório. Um punhado de bem, um punhado de mal. É só misturar com água.”
“A menina começou a soluçar de um modo tão incontrolável, que o pai morreu de vontade de puxá-la para si e abraçá-la apertado. Não o fez. Em vez disso, agachou-se e a fitou diretamente nos olhos. Soltou suas palavras mais mansas até então: – Verstehst du mich? A menina fez que sim. Chorou e, nessa hora, derrotado, abatido, o pai a abraçou em meio ao ar de tinta e à luz de querosene. – Eu entendo, papai, entendo.”
“[Rudy] teria ficado contente em vê-la beijar seus lábios poeirentos, atingidos pela bomba. É, eu sei. Na escuridão de meu coração tenebroso, eu sei. Ele teria adorado, com certeza. Viu? Até a morte tem coração.”
“Max Vandenburg, o judeu, pôs-se de pé e ficou ereto. Sua voz vacilou. Um convite. – Venha, Führer – disse, e, dessa vez, quando Adolf Hitler partiu para seu adversário judaico, Max se esquivou e o fez mergulhar no canto. Esmurrou-o várias vezes, sempre visando uma coisa só. O bigode.”
“Assim que Rudy desabou num canto e salpicou lama de sua manga na janela, Franz disparou-lhe a pergunta predileta da Juventude Hitlerista. – Em que dia nasceu o nosso Führer, Adolf Hitler? Rudy ergueu os olhos: – Perdão? A pergunta foi repetida e o estupidíssimo Rudy Steiner, que sabia perfeitamente que tinha sido em 20 de abril de 1889, respondeu com a data do nascimento de Cristo. Inclui até Belém, de quebra, como uma informação adicional.”
“- Por favor, Max, não morra! Ele era o segundo boneco de neve a derreter diante de seus olhos, só que esse era diferente. Era um paradoxo. Quando mais frio ficava, mais derretia.”
“No porão, ao escrever sobre sua vida, Liesel jurou que nunca mais tomaria champanhe, pois ele nunca teria um sabor tão gostoso quanto naquela tarde quente de julho.”
“Havia estrelas-de-davi coladas em suas camisas, e a desgraça prendia-se a eles como que por designação. (…) A seu lado, os soldados também passavam, dando ordens para eles se apressarem e pararem de resmungar. Alguns desses soldados eram apenas meninos. Tinham o Führer nos olhos.”
“É lícito dizer que, em todos os anos do império de Hitler, nenhuma pessoa pôde servir ao Führer com tanta lealdade quanto eu. O ser humano não tem um coração como o meu. O coração humano é uma linha, ao passo que o meu é um círculo, e tenho a capacidade interminável de estar no lugar certo na hora certa. A consequência disso é que estou sempre achando seres humanos no que eles têm de melhor e de pior. Vejo sua feiúra e sua beleza, e me pergunto como uma mesma coisa pode ser as duas. Mas eles têm uma coisa que eu invejo. Que mais não seja, os humanos têm o bom senso de morrer.”
“Seus cretinos, pensou. Seus cretinos encantadores. Não me façam feliz. Por favor, não me saciem nem me deixem pensar que alguma coisa boa pode sair disso. Olhem para meus machucados. Olhem para este arranhão. Estão vendo o arranhão dentro de mim? Estão vendo ele crescer bem diante dos seus olhos, me corroendo? Não quero ter esperança de mais nada. Não quero rezar para que Max esteja vivo e em segurança. Nem Alex Steiner. Porque o mundo não os merece.”
A menina que roubava livros
Marcus Zusak
Editora Intrínseca
2007
494 páginas
Comprar livro
As tais redes sociais, o tal RSS e outros “tais” da Internet
Para alguns pode ser um assunto mais do que batido pois já deve ter se tornado parte da rotina há muito tempo. Entretanto para outros ainda é algo desconhecido. O significado das letras também não é muito amigável (RSS vem de Really Simple Sindication). Meus amigos não são muito fãs de tecnologia mas vivem navegando pela Internet. Aí vêm as perguntas: “o que é esse tal de Twitter?”, “e essas tais de redes sociais, o que são?”. Então, se a Internet é presença constante na vida de todos, sou eu quem pergunta: por que correr atrás da informação se ela pode vir até você?
A Internet já faz parte da vida das pessoas há uns quinze anos e, em tese, a tal da globalização teve um grande salto com a chegada dela, afinal, a ideia de ter-se uma tribo global em prol da integração mundial nas mais diversas áreas (econômica, social, cultural, política) totalmente conectada durante as 24 horas do dia é fantástica e louvável. Mas o que se via até hoje eram transmissores e receptores de informação em polos distintos. Os agentes de comunicação e os internautas.
Com o advento dos blogs e redes sociais, o internauta passou a ter acesso mais fácil à publicação de conteúdo, afinal, o que antes era exclusivo daqueles que detinham os conhecimentos e recursos necessários (domínios, serviços, HTML, bancos de dados etc) tornou-se algo fácil, a um clique de distância. Publicar seu próprio conteúdo gratuitamente em uma estrutura concisa, independentemente dos assuntos abordados, foi o que a onda de aplicativos web 2.0 trouxe. Redes sociais como o Facebook, MySpace, Orkut e LinkedIn permitiram a reunião de pessoas por afinidades. Serviços de blogging como o Blogger e WordPress fizeram de anônimos “celebridades virtuais” devido ao alcance de suas postagens. Mas a exigência de textos com uma quantidade mínima de caracteres, com uma estrutura bem definida com leads, entretítulos e parágrafos e com um português bem escrito ainda traçava um limite para a publicação de conteúdo. Foi quando surgiram os serviços de micro-blogging, sendo o Twitter o mais famoso destes, que se tornou febre mundial pois qualquer um pode escrever o que quiser – em português, inglês, francês… ou internetês – dentro do limite de 140 caracteres. Tem gente que até ganha dinheiro com isso.
O título deste post começa com a pergunta referente ao RSS pois o considero um dos itens mais importantes dentro de qualquer aplicativo mencionado acima e, “por increça que parível”, ele não recebe a ênfase devida. Geralmente são aqueles ícones laranjinhas escondidos em algum canto da página ou as palavras “Feeds”, “Atom” ou o próprio “RSS”. Não darei nenhuma definição técnica pois estas podem ser encontradas na Wikipedia, acessível nos hiperlinks presentes no texto. Aliás, falando em Wikipedia, ela também é grande protagonista na (r)evolução da Internet.
O RSS é nada mais que um simples arquivo de texto que possui referências ao conteúdo de um site, um blog, um microblog ou um serviço de Internet, que se atualiza automaticamente. Quero um exemplo, Bottini! Bom, se você for fã do canal de Esportes, Economia ou Tecnologia de algum jornal, você cadastra o RSS destes canais no seu leitor de RSS (já falo sobre os leitores) e, sempre que houver alguma novidade, será informado sem que haja a necessidade de acessar o site e procurar pela novidade. Outro exemplo? Seu amigo possui um blog e você gosta de saber quando ele publica algo novo. Mais um? Um parente decidiu dar a volta ao mundo em 80 dias e periodicamente ele coloca no ar uma galeria de fotos no Flickr com suas aventuras. Quer algo mais multimídia? Cadastre o RSS da CBN e ouça na íntegra os comentários dos colunistas que desejar. Já ouviu falar em podcast? Voici le RSS.
Mas como eu faço para ler esse tal de RSS? Apesar de mencionar alguns serviços deste gigante da Internet, ainda não tinha escrito o seu nome. O melhor ficou para o final. Já testei diversos leitores mas o Google, em minha opinião, apresentou a solução. O seu aplicativo online Google Reader agregou em um serviço tudo o que o RSS oferece. Desde a natural leitura de atualizações até a organização de feeds por pastas e inserção de notas e comentários. Viu que um texto é bom mas está sem tempo para lê-lo agora? Marque-o como não lido. Gostou dele? Coloque uma estrelinha nele e depois acesse seus “Starred items/Itens com estrela”. Gostaria de mostrar a seus amigos um post interessante? Compartilhe-o com contatos e digite um comentário. Você pode deixar uma guia de seu navegador com o Google Reader aberto e ele sempre mostrará o que há de novo. Ah! Existe também a versão desktop dele, baseada no Adobe AIR.
Gostou do assunto deste post? Seguem algumas palavras-chave para você pesquisar um pouco mais: podcast, video podcast, xml, atom feed.
Bossa Nova: amor absoluto

Ouvir Bossa Nova é bom e saudável e, não – para os que insistem em falar mal dela – é preciso estar apaixonado para se deliciar com as curvas do violão de João Gilberto, com as dissonâncias de Jobim e as poesias de Vinícius. Calma, tem muito mais gente nessa mistura, mas para o leigo o mais comum é fazer esse triângulo. A paixão vem depois, consequência inevitável.
Como grande adepto do ritmo, sempre me vejo pensando em tudo que se passou em todo aquele tempo, desde o início de algo que parecia que não ia virar até as grandes apresentações. E todas as imagens, sons e diálogos dessas minhas viagens pretéritas são – pasmem – construídas apenas em minha cabeça, pois vim das as caras ao mundo um pouco depois. Digamos, trinta anos depois. Enfim, nem tudo pode ser como queremos. Mas isso prova que o gap entre gerações não é suficiente para separá-las totalmente. Enfim, esses trinta anos não me impediram de conhecer e desfrutar de tanta maravilha em um lugar só. A Bossa Nova é como Pelé, só houve um e jamais haverá outro igual. É daquele tipo de fenômeno raro da astronomia que acontece a cada dois milhões de anos-luz.
É como parar pra pensar na onisciência de Deus. Quer saber por que vale a analogia? Só no Rio de Janeiro, com a Bossa Nova, é que se viu um agrupamento de gênios da música e poesia trabalhando juntos. Gênios mesmo. Gênios daqueles que a medicina comprova, daqueles que tem um pouco (ou muito) de louco, daqueles gênios que são gênios.
João Gilberto e Dick Farney têm ouvido absoluto. Tom Jobim não tinha ouvido absoluto, mas sua sensibilidade musical era tanta que seu braço arrepiava quando encontrava um acorde. O violão de Baden Powell era a extensão de seu braço. As letras de Carlos Lyra, Roberto Menescal, Tom Jobim, Newton Mendonça e Vinícius são pura arte.
Grandes compositores, intérpretes e instrumentistas como Lúcio Alves, Billy Blanco, Maysa, Ronaldo Bôscoli, Elis Regina, João Donato, Nara Leão, Eumir Deodato, Luís Carlos Vinhas, Luizinho Eça, Milton Banana e Edu Lobo aumentam a lista dos grandes nomes da BN.
A onda da Bossa Nova cresceu e buscou novos mares. Mas logo todos os mares queriam essa onda e então o mundo a abraçou. Coitados dos que só se prezavam por falar mal, afirmando que era uma cópia mal feita do Jazz, que não era música… A BN era tão bossa e tão nova que foi infeitiçando quem a ouvisse. Sammy Davis, Lena Horne, Stan Getz Charlie Bird, Tony Bennet e sem falar em Frank Sinatra (esse também com ouvido absoluto) que ligou para Tom Jobim e o convidou para gravar um disco.
Enfim, só me resta contemplar, contemplar e contemplar. Nada como ouvir a voz e violão de João Gilberto batendo um papo como em “De conversa em conversa” ou fantasiando como em “Vivo sonhando”. Outro dia o Zuza Homem de Mello disse que João Gilberto é capaz de fazer de “Parabéns a você” uma música sensacional. Quem já ouviu João ao vivo sabe o que Zuza está falando.
Ultimamente tenho ouvido falar mais em Bossa Nova. Chega de Saudade! Não aguentava mais ouvir tanto lixo musical. Sempre tem alguém que ainda sabe o que é boa música. A estes, meus sinceros agradecimentos. Vale citar Fernanda Porto, Celso Fonseca, Ronaldo Bastos, Bebel Gilberto, Maria Rita, entre outros. Aos que ainda se encontram conosco e continuam sempre muito bossa nova, minha veneração. João Donato, Roberto Menescal, MPB4, sem falar em João Gilberto. Ah João… Outro dia fui a um show dele e na semana anterior ao evento ficava pensando em todos aqueles mistérios que falam a respeito dele. Desde quando um cantor hipnotizaria alguém com sua voz? Tudo bem que João é João, mas aí é demais. O Tomé dentro de mim insistiu em esperar. Chegado o grande dia, nada de especial aconteceu. Sentado, observando, ouvindo o Joãozinho cantar e tocar aquele violão, reclamar um pouco do som… nada demais.
Só quando cheguei em casa percebi que durante o show não tinha conseguido prestar atenção em nada que não fosse João Gilberto. Palmas, assobios, luzes… não tinha ouvido nem percebido nada. Somente aquela voz que, mesmo um pouco diferente pelo efeito dos anos, manteve a mesma suavidade, leveza e a magia de sempre. E tudo isso só com apenas um banquinho e um violão. É experiência pra contar para os netos. Viva a Bossa Nova!
A velha e boa Bossa Nova voltou mais uma vez para ficar por toda a vida. Ops, acho que Vinícius já disse isso um dia. Verdade.
–
Escrevi este texto em 2003, ano em que dediquei-me a meu trabalho de gradução em Design. Ano em que fiz uma viagem rápida – entretanto inesquecível – ao Rio de Janeiro para conversar com Cesar Villela e Ruy Castro e viver uma noite de sábado em Ipanema. Ouvi Billy Blanco cantando em frente à Toca do Vinícius e vi o Carlinhos Lyra passeando de camiseta regata por lá. Ano em que fui hipnotizado por João Gilberto em sua apresentação na inauguração do Tom Brasil, em São Paulo. Ano em que decretei amizades para a vida. Um ano bossa nova.