1-V4ZKr9RoNccLq0NEO8vBDw

Uma noite na vida de um garçom

Hoje eu acordei com vontade de dormir.

Trabalhar à noite é legal, afinal, vejo gente interessante, bonita, bem vestida, além de escutar de tudo um pouco. Nas minhas incontáveis caminhadas entre a cozinha e o salão escuto fofocas, gente falando bem disso e mal daquilo, jovens flertando, pais ciumentos, gente que abusou um pouco da bebida e tudo mais aquilo que você também vê quando vai a algum evento.

Confraternizações de negócios são formais, aniversários são bonitos, mas casamentos, apesar de serem o tipo de evento que mais cansa, são especiais. Sempre. Afinal, aniversário tem todo ano, reuniões de negócio são apenas pretextos para objetivos mais nobres (ou obscuros), agora, casamentos… E se for casamento entre judeus, é ainda melhor. Vocês já repararam na festança que eles fazem? Danças lindas, sorrisos que não acabam. É muito lindo mesmo! Quando chegar minha vez terá de ser inesquecível. Mas, no auge dos meus vinte e dois, acho que ainda sou muito jovem pra isso.

A verdade é que amo servir em casamentos. Deve ser porque gosto de trabalhar sob pressão, afinal, tudo tem de sair sem falhas. E esta cobrança é para todos: os convidados querem mostrar-se belos e perfumados, os padrinhos querem refletir a alegria dos noivos, os pais dos noivos querem que tudo seja perfeito e os noivos…

ah, os noivos… esses estão voando com os pés no chão.

Como é lindo ver um casal que escolheu estar junto. O Jaime, um garçom que trabalha comigo há dois meses — e que acabou se tornando um amigo de grandes conversas -, vive me dizendo que no futuro será tão banal que as pessoas tratarão casamentos como descartáveis. Espero que ele esteja errado.

Bom, para o pessoal que trabalha, a lista de requisitos é grande. Comida sempre quente, nada de copos vazios, limpeza absoluta, olhos de coruja (sempre existe alguém no salão procurando o garçom) e muita prontidão e rapidez.

Mas hoje está difícil. Não falei que tinha acordado com vontade de dormir? Pois é, ontem teve uma reunião de negócios e, apesar de ser minha folga, fui chamado de última hora para cobrir um garçom que sumiu sem avisar. Dizem que ele fugiu para Roma atrás de um amor… Se foi atrás de um amor ou se achou um emprego que pague mais, a verdade é que era meu dia de descanso e agora pareço um sonâmbulo que precisa estar atento para não derrubar nada e distribuir sorrisos a noite toda.

Pelo menos é um casamento.

Saio de casa apressado. O sol já começa a se esconder no oeste mas a cidade parece não perceber. Como sempre, as ruas cheias de comerciantes, gente vendendo de tudo, muita poeira no ar e eu me esforçando para manter meu único par de sapatos limpo.

Caminho rápido e, ao parar brevemente para observar uma linda criança de mãos dadas com sua mãe — como amo observar pessoas! -, vejo um vulto em minha direção, mas antes de conseguir me desviar, sinto um forte solavanco em meu ombro. Um homem me encara com um olhar pesado e grita: “Você anda como se nada estivesse tudo normal. Aguarde só que quando ele chegar, o mundo saberá que somos a verdadeira nobreza!”.

Fiz uma cara feia pra ele e segui em frente, não sem antes ouvi-lo repetir a mesma frase para outra pessoa.

Louco tem em todo lugar…

Chego com cinco minutos de antecedência e o mestre-sala logo me trata com aquela educação de sempre: “Corre pra cozinha e coloque o avental! Não se esqueça de lavar as mãos e do sorriso! Vá direto para a porta porque hoje você começa na recepção!”.

Apesar do jeitão duro dele — ele não sabe, mas seu apelido entre os garçons é “coração de pedra” -, sei que é apenas fachada, para manter o respeito e conseguir ter tudo sob controle. De qualquer forma, a cara dele é sempre de desconfiado.

Já estou com a roupa alinhada, queixo pra cima e desejando boas-vindas a todos que adentram. Como esperado, gente bem bonita, com suas melhores roupas, prontas para o grande momento.

Ficar na porta antes do início do casamento tem suas vantagens. Enquanto os garçons têm de servir quem chega, trabalhando num ritmo ininterrupto e desgastante, os encarregados pela recepção conseguem retardar esta fase e apenas distribuir sorrisos e apontar a mesa onde os convidados devem se sentar. Olho rapidamente para o salão, observo que praticamente todas as mesas estão preenchidas, com exceção de uma, entre o centro e o fundo do salão, com cerca de quinze lugares. Não passam cinco minutos até que surge na porta a última leva de convidados. Uma jovem senhora, humilde mas muito bonita e bem vestida, com um leve e doce perfume, vem à frente de um grupo de jovens bem alegres e conversando em voz alta. O primeiro rapaz após ela, certamente seu filho pelo idêntico sorriso, deve ter puxado as feições do pai, pois a única semelhança entre eles era o sorriso. Apesar da ausência da uma beleza chamativa, algo a seu respeito — que ainda não sabia discernir — me chamou a atenção.

Salão cheio, todos os olhares voltados para a mesa dos noivos. Logo percebi que eram famílias que já se conheciam, ou seja, era realmente uma festa de pura celebração, sem toda a formalidade comum aos casamentos, nos quais há aqueles diversos discursos de entrega e promessas. Ver isso me ajudou a sentir mais leveza no trabalho, pois, vindo de um dia anterior bem desgastante, meu cansaço começava a dar suas caras agora que eu já estava servindo aquele gigante salão.

Famílias conhecidas, salão repleto de gente, música alegre, comida e bebida em fartura, era tudo muito perfeito. Até o mestre-sala mostrou um semblante mais leve. Mas esta mistura de levezas cobrou um preço. E fui eu quem recebi tal notificação.

Pode deixar que explico.

Estava caminhando pelo salão, quando o pai da noiva me chamou e pediu mais uma garrafa de vinho para sua mesa. “É claro, senhor!”, respondi.

Mais um pedido dentre tantos, com o diferencial de que este vinha da mesa principal. Para um mero garçom dentre tantos outros que atendiam aquele banquete, era uma honra levar aromas frescos da vide para a mesa. Caminho sério por fora, mas reluzente por dentro. Nem percebo um olhar diferente que recebi do rapaz que chegara por último.

De repente, o chão se foi. O vinho acabou. A festa estava em seu auge, com muita música para ser apreciada e comida para ser degustada. Fiz apenas um gesto para o mestre-sala para que viesse à cozinha.

– O… vinho acabou.
– Como? você está louco? Está cheio de vinho lá atrás!
– Já verifiquei lá atrás também. Apenas garrafas vazias.
– Por que você não viu isso antes?
– Mas, senhor… há trinta minutos busquei uma garrafa de vinho e ainda havia muitas disponíveis.
– Mas como não fui perceber isso! Foi aquele rapaz que chegou por último que desviou minha atenção com sua alegria insolente!

Apenas abaixo a cabeça enquanto o mestre-sala continua procurando culpados pelo seu erro, afinal, ele é o maior responsável pela reposição dos suprimentos. A jovem senhora, que voltava do toalete, percebeu a tensão presente na entrada da cozinha. Respeitosa e discreta, continuou seu caminho em direção à sua mesa.

Apenas torci para que ela não tivesse ouvido as últimas palavras do mestre-sala, que aproximou-se lentamente do ouvido do pai da noiva e disse algo inaudível para o salão inteiro. Entretanto, tal silêncio não era necessário, uma vez que sua reação foi percebida por todos. O “não!” exclamado em alta voz, enquanto segurava sua taça com um último gole, foi notório.

O noivo, que estava abraçado à noiva, imaginou que seu sogro estivesse bêbado e continuou a falar doçuras no ouvido de sua amada. Das mesas no fundo percebeu-se apenas um alvoroço vindo do centro. O Jaime e outro garçom serviam a mesa dos amigos, mas como todos os olhos estavam voltados para a mesa dos pais dos noivos, onde eu estava, um dos amigos do jovem gesticulou para que eu me aproximasse e matasse sua curiosidade. Antes que eu chegasse, a jovem senhora se aproximou e, sendo notada por todos os amigos de seu filho, disse: “Filho, eles não têm mais vinho”.

Pois é, apesar da minha torcida, ela tinha ouvido o desabafo do mestre-sala.

– Minha hora ainda não chegou, respondeu o misterioso jovem.

Como é possível que, por toda a noite, todos conversavam e riam ao redor deste excêntrico rapaz, uma vez que ele, além de um jeito diferente, falava coisas sem nexo? Pensei comigo.

Já estava me virando para voltar à mesa central e estar pronto para atender qualquer pedido do mestre-sala quando a jovem senhora me segura o ombro e diz:

– Faça tudo que ele lhe disser.

E agora? O que será mais estranho nesta festa? O vinho acabar, o mestre-sala totalmente sem ação enquanto o pai da noiva, desolado, tenta achar alguma explicação para tamanho desapontamento ou um excêntrico rapaz a quem terei de obedecer a pedido de sua mãe?

– Vocês três, encham esses seis vasos com água e levem ao mestre-sala.

Não havia possibilidade de negação, não havia questionamento. Eu, Jaime e o outro garçom simplesmente fizemos o que ele pediu, sem porquês. Cada um com dois vasos entre seus braços, caminhamos rumo à cozinha passando pelo mestre-sala, que, conversando com o pai da noiva, nem nos notou. Enchemos os vasos e os levamos diretamente ao balcão ao lado da mesa dos noivos.

A impressão que eu tinha era a de que até eu havia tomado vinho aquela noite, dada a sensação de um aquecimento interno que passava por mim. Mas não era proveniente de álcool, claro, pois nunca bebi durante meu expediente. Era apenas inexplicável.

Uma mistura de não sei o quê com uma vontade de sorrir.

Gentilmente encostei minha mão direita no ombro do mestre-sala e ele volta com um olhar inquisidor e amedrontado ao mesmo tempo e me diz:

– O que foi, Marcos! Você não percebeu que estou tentando resolver um grave problema?

Conversar com o dono da festa, que já bebeu um pouco demais, e tentar explicar o inexplicável era algo impossível — pensei comigo – mas, mesmo perdido em si mesmo, ele queria manter seu ar superior de chefe.

– Por favor, prove deste vaso, disse-lhe.

Finalmente ele percebera que aquele meu pedido era uma fuga instantânea do mal estar em que estivera pelos últimos cinco minutos. Educadamente pediu licença para o pai da noiva — que virou o último gole do vinho e balançou a cabeça negativamente olhando para o vazio da mesa -, e provou da bebida que estava nos vasos.

Minhas pernas tremeram quando ele tirou a concha de dentro para encher a taça. Mas algo não me permitiu exprimir nenhuma palavra. Dentro de mim um turbilhão de emoções emanava. Fora, uma espessa camada de água cobriu meus dois olhos e o canto direito de minha boca contraiu-se levemente.

Lágrimas e um esboço de sorriso: uma combinação que raramente me arremata, mas, quando vem, é como se eu vivesse a eternidade por um instante.

Meu amigo Jaime tinha o mesmo olhar. O outro garçom virou-se e caminhou rapidamente em direção ao toalete (não aguentou o turbilhão de emoções). Antes da primeira palavra sair de sua boca, um profundo suspiro de alívio veio do mestre-sala. Em seguida, deu uma leve risada e rumou para o encontro do noivo, deu dois leves tapinhas em suas costas e disse:

– Eu percebi que enquanto conversava com seu sogro, você era o único que não prestava atenção, sempre atento à sua bela noiva, como se soubesse que não havia o problema da falta de vinho, disse cheio de segurança.

– Perdoe-me, meu caro, mas eu não prestava atenção no assunto da mesa pois é realmente impossível que alguma coisa seja mais importante nesta noite do que admirar os belos olhos de minha noiva. E quanto ao…

Ainda muito seguro de si, certo de que o noivo lhe pregava uma peça, interrompeu-o e prosseguiu:

– Claro, não tenho dúvida de que este é o momento mais emocionante e belo de sua existência, e tenho a certeza de que nada poderia ofuscar seu olhar à sua bela esposa. Entretanto, eu, como mestre-sala, preciso dizer-lhe que ganhou mais um admirador, pois é a primeira vez que vejo um anfitrião reservar o melhor vinho para o final da festa. Aliás, que vinho formidável! Nunca provei um com tanta leveza e personalidade.

– Como eu vinha dizendo, quanto ao vinho, não fazia a mínima ideia de que ele tinha acabado. E confesso não ser um bom conhecedor de seus sabores, variedades e personalidades…

Neste momento o noivo deu outro riso.

– …Aliás, nem sabia que vinho possuía personalidade, mas, como sei que és bom entendedor, respeito sua opinião e digo que meus convidados são os principais beneficiários deste excelente vinho então, afinal, vejo que são cinco, aliás, seis vasos repletos deste ótimo vinho. Seja qual for sua origem, fiquem à vontade, todos! Inclusive vocês, que estão apenas trabalhando aqui, esta noite. Vamos celebrar este momento único em minha vida. Vocês são meus convidados também! Músicos, a partir de agora, façam uma seleção com suas mais alegres músicas!

A primeira coisa que fiz foi buscar o olhar daquele rapaz, que já olhava para mim. Havia muitas pessoas na festa e quase ninguém percebera o que estava acontecendo. Naquele primeiro momento, apenas três garçons sabiam o que tinha acontecido, e eu era um deles. O mestre-sala, apesar da ausência de respostas quanto à proveniência do vinho de rara qualidade, estava aliviado, as pessoas nas mesas ao redor do jovem voltaram a conversar e celebrar a festa. O pai da noiva fez uma cara de insatisfeito para o mestre-sala, como se lhe dissesse: “Custava verificar duas vezes antes de me falar uma bobagem?”.

Sem pensar duas vezes andei rapidamente em direção ao jovem e ajoelhei-me a seus pés, chorando.

– Senhor, desde que o vi meu coração alegrou-se.

– Muito prazer, Marcos. Meu nome é Jesus. Vejo que você trabalhou bastante hoje. Porque não pega uma taça de vinho e aprecia um pouco a festa?

E logo voltou-se a seus amigos, que também estavam com feições semelhantes à minha, ainda não conseguindo entender o que se passara. Alegremente servi daquele vinho a todos na festa que, sem exceção, brindavam ao ar em direção à mesa dos noivos, agradecendo pela inigualável festa da qual faziam parte.

Ao chegar à mesa do jovem, cujo nome agora me era conhecido — Jesus —, comecei a servir o vinho pela sua jovem mãe, que sorriu para mim em agradecimento. Seus amigos também retribuíam sorrisos e um deles, o mais seguro de todos, levantou-se e me disse:

– Irmão, você acabou de conhecer o enviado de Deus, aquele que há de salvar e libertar o mundo.

Em seguida abraçou-me e beijou-me o rosto.

Naquele momento a mesa já era alvo dos olhares do salão. Todos estavam curiosos e queriam saber quem era aquele jovem que tinha mandado trazer o melhor vinho que já tinham provado. Ninguém ali sabia que nós tínhamos colocado apenas água nos vasos.

Algumas pessoas mais próximas chegaram a falar que tinham ouvido o rapaz pedir para colocar água, mas um absurdo desses logo viraria piada. Os mais abastados queriam mesmo era saber qual era a origem do vinho, pois fariam de tudo para comprar dele.

A festa continuou e eu continuei a servir alegremente a todos, sentindo que aquele inesperado expediente tinha mudado a minha vida, para sempre.

A partir de então, passei a observar diariamente o que acontecia ao redor da vida de Jesus. Não demorou muito para eu não mais precisar buscar novidades a seu respeito. Em pouco tempo ele era o assunto em toda a cidade e todos falavam dos milagres a ele atribuídos.

Passei a estudar os santos escritos e tudo passou a fazer sentido. Ele era o Messias.

O resto da história você já sabe. Todos o viram ser crucificado e morto e, assim como tive o prazer de vê-lo realizar seu primeiro milagre, cujos detalhes aqui descrevi, também tive o imensurável prazer de vê-lo subir aos céus, dizendo que voltará.

Esta simples noite em minha vida como garçom poderia ter sido apenas uma noite qualquer, mas se hoje escrevo sobre ela é porque foi ali que conheci Jesus de Nazaré, o senhor de minha vida, criador de todas as coisas e quem é a pura definição do amor. Espero que você tenha o prazer de viver com a mesma segurança e alegria que tenho. Alegria que hoje meus filhos e netos também compartilham.

PS: Este texto é uma mera liberdade poética que tive de imaginar, sob o prisma de um dos servos naquele casamento em Caná da Galileia, como deve ter sido uma experiência pessoal ao testemunhar o primeiro milagre de Jesus. Marcos, seu protagonista, pode ter sido um garçom qualquer que teve sua vida impactada pelo Cristo, e sobre o qual não temos nenhum relato, ou também pode ter sido aquele que viera a tornar-se o evangelista Marcos, que escreveu sobre a vida de Jesus em nosso mundo e depois testemunhou sobre ele no Egito, conforme prega a Igreja Ortodoxa Copta.

Nenhum comentário.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *