Dusky Dolphin (Lagenorhynchus obscurus) leaping out of water, New Zealand

Mudando-me para Houston

Este texto segue a estrutura proposta pelo Vinícius Baggio, que descreveu seu processo de mudança para San Francisco e, seguido pelo texto de Mauricio Wolff, que mudou-se para Amsterdam. Meus objetivos são retratar minha experiência (que está apenas em seu início) e, por que não, ser um registro para os descendentes sobre como o “vovô” veio parar nos Estados Unidos. Para não ser redundante, não falei sobre assuntos já tratados no texto do Vinícius. Desta forma, recomendo que você o leia antes. Apesar de ser outra cidade (San Francisco) em outro estado (Califórnia), muitas informações são referentes ao mesmo país.

Este texto também foi publicado no Medium.

1. Como arrumei meu emprego
2. O visto de trabalho (H-1B)
3. A mudança
4. O contrato de trabalho e benefícios
5. Vida em Houston

Como arrumei meu emprego

Aprendi inglês ainda quando criança por ter um pai que era professor e uma mãe que me incentivava a estudar. Sempre me interessava por ler e ver coisas sobre os Estados Unidos, entretanto, meu apego à família nunca me permitiu criar asas. Era um apego pueril, ao ponto de não conseguir ficar muitos dias fora de casa pois já começava a chorar de saudades. Lembro-me de, na época de colegial (o Ensino Médio atual), alguns amigos que planejavam estudar nos EUA, mas, para mim, a vida seguiria seu rumo normal: escola, faculdade, bom emprego e construção da família. Tudo isto em São Paulo.

E assim a vida seguiu, até que na viagem de lua-de-mel, em 2007, visitei três lugares interessantes: Londres, Paris e Amsterdam. Conhecer um mundo diferente e culturas diversas abriu meus olhos para algo que era apenas uma admiração. Foi quando comecei a estudar francês pois decidira, junto com minha esposa, que moraria em Paris. Surgiu uma proposta de emprego para trabalhar para o governo francês, mas era em São Paulo mesmo. Bateu na trave (risos). Em seguida, o governo canadense estava incentivando a ida de imigrantes para lá. Como já falava o inglês e o francês, seria uma ótima oportunidade. Só não deu certo porque eu vi que não me daria bem em meio a tanto frio e a invernos longos de dias curtos.

Um parêntese antes de continuar. Antes de falar sobre o emprego, um pouco sobre minha formação: sou graduado em Design Digital e pós-graduado em Tecnologia da Informação. E, na área de trabalho, comecei minha carreira como estagiário de design e programação no iG, atuei como gerente de Internet no Greenpeace (em São Paulo também, e não Amsterdam, o que seria o máximo) e trabalhei dez anos na empresa espanhola Indra, em projetos de telecom na Telefônica, Vivo e Tim. Nestes dez anos, acumulei funções de designer de interfaces, programador front-end, analista de sistemas, desenvolvedor Java e, antes de vir para os EUA, atuava como gerente de projeto.

Voltando ao histórico, após desistir do Canadá, decidi sossegar e continuar minha vida aqui no Brasil. Os EUA estavam cada vez mais distantes e fora de cogitação, uma vez que, em 2002, ao tentar passar férias lá, tive o visto negado. No entanto, sempre tive muitos parentes espalhados lá. Arizona, Nova York, Havaí, para onde eu apontasse no mapa eu poderia encontrar um (risos) e, “para piorar”, meu cunhado (irmão de minha esposa) tinha se mudado para a Califórnia. Então, em 2012 — dez anos depois — minha raivinha por ter o visto negado tinha passado, e finalmente viajei para lá. Foi quando senti novamente aquela mesma sensação de 2007: preciso ter uma experiência aqui.

Desde então passei a procurar alternativas. Vínculos familiares, emprego, contratar um coiote e vir pelo México (just kidding). Enquanto procurava, já planejava as próximas férias nos EUA, e assim continuei vindo para cá e, a cada viagem, conhecendo um pouco mais do país. Em 2013, um daqueles amigos de colegial surgiu na história. Em um bate-papo informal, conversei com ele sobre minha vontade e, coincidentemente, ele também trabalhava com tecnologia. Foi quando ele me indicou na empresa em que trabalhava (Blinds.com, comprada pelo Home Depot no início de 2014) e, após uma viagem a Houston para conhecer a empresa e ser avaliado, fui aprovado.

O visto de trabalho (H-1B)

O fato de o Home Depot ser uma empresa grande facilitou muito o processo. Eles trabalham com um escritório especializado que me solicitou toda a documentação necessária. Cópias com tradução juramentada de currículo, diplomas, históricos escolares, cartas de recomendação, além de todos os principais documentos (certidão de casamento, de nascimento, passaporte, dentre outros).

Após a juntada de documentos, este escritório aguarda a janela de abertura do governo americano para vistos de trabalho (H1-B), que acontece anualmente no primeiro dia útil de abril. Para o ano fiscal de 2015, que começa no dia 1º de outubro de 2014, foram 85 mil vistos liberados (65 mil gerais mais 20 mil para quem possui mestrado realizado nos EUA). No total foram recebidas 172.500 petições pelo governo. O quê fazer para peneirar? Simples: sorteio. E desde o dia primeiro de abril, quando recebi o número de minha petição, aguardei ansiosamente a resposta, que chegou positiva no dia 2 de maio. Documentação coerente, visto carimbado, agora vem o próximo passo: fazer as malas.

A mudança

Se eu fosse um adolescente recém formado no Ensino Médio, a história seria uma. Agora, um trintão casado, estabelecido e com cachorros teria de se virar nos trinta para enfrentar tudo o que viria pela frente. Além da ajuda e incentivo de amigos e parentes, ter uma mente pra frente, ser otimista, estar contente pela mudança e, principalmente, ter fé em Deus, fazem toda a diferença.

E, com baby steps seguimos o planejamento: assim que o visto foi carimbado, eu e minha esposa decidimos ser transparentes em tudo. Ou seja, logo avisamos nossos empregos quanto a nossa partida em cinco meses e os parentes e amigos mais próximos. Em seguida, começamos a fase do “família vende tudo” e também muita pesquisa sobre as primeiras necessidades em solo americano.

Long story short, no dia 7 de setembro embarquei para os EUA e aí começa uma nova etapa de nossa vida.

O contrato de trabalho e benefícios

O visto H-1B funciona da seguinte forma: são três anos de trabalho nos EUA, com a possibilidade de renovação por mais três anos. Após este período de seis anos, o trabalhador precisa retornar a seu país e ficar no mínimo um ano antes de iniciar um novo processo. Em meu contrato com o Home Depot são detalhados meus direitos e deveres, como salário, férias, plano de saúde e políticas específicas para funcionários.

Vida em Houston

Houston é uma cidade fantástica. Conversei, somente na primeira semana, com pessoas dos seguintes países: Uganda, Nigéria, Colômbia, Grécia, Vietnam, Japão, México, República Dominicana e, claro, Brasil (afinal, brasileiro tem em todo lugar). Ou seja, é uma diversidade absurda e, para minha sorte, brasileiro faz sucesso onde estiver. Basta mencionar minha origem que vem um sorriso, uma pergunta sobre nosso país ou, como aconteceu mais de uma vez, um “Oh, man… I’m sorry for the World Cup… What happened?”. Nessas horas é possível discernir-se muito bem a “camaleonice” tupiniquim.

Ainda não tive tempo para conhecer bem a cidade, algo que, assim que tiver mais subsídios para tal, será transformado em texto mas, em pouco tempo de Houston, é inevitável perceber-se a imprescindível necessidade de carro para locomover-se, a grande quantidade de restaurantes com culinária que abrange praticamente o mundo todo e a grandiosidade inerente ao estado da estrela solitária.

Também devido à diversidade mencionada, as pessoas têm a tendência de ser mais abertas ao novo, ao diferente. Exceção foram as duas ocasiões em que fui tratado com desdém, a primeira em um Walmart (algo que não é nenhuma novidade) e em um Driver License Office. Nos dois casos, as pessoas que acordaram com o pé esquerdo não eram imigrantes. Enfim, foram apenas exceções. Por regra, a maioria esbanja cordialidade e educação.

O texto do Vinícius menciona o Social Security Number e o Credit Score. Ratifico tudo o que ele disse. Sem ambos a vida é bem complicada. O SSN é necessário para tudo, de forma que no primeiro dia no país já solicitei o meu, que chegou na semana seguinte. Agora, lidar com o Credit Score, ou melhor, com a sua ausência, é desafio para qualquer imigrante, que deve, a partir do momento que receber seu SSN, começar a construir um bom histórico pagando suas contas em dia e sendo responsável financeiramente.

Enfim, toda grande mudança tem gosto bom ao paladar. Mesmo com os receios e preocupações naturais a uma grande reviravolta e em meio aos grandes desafios de uma nova — e gigante — empreitada (eu mencionei que minha esposa veio para cá grávida?), além de sentir-me como uma criança para tudo (acredite, até enviar uma carta no correio passa a ser um desafio), tem valido muito a pena encarar esta jornada.

E a saudade é amenizada com Skype calls, lágrimas noturnas e um pouco de Milton Nascimento.

3 Comments

  1. Luiz Aguiar

    3 anos atrás

    Que legal cara… boa sorte e muito sucesso pra vcs ai!!

    PS: Se tiver vaga pra trabalho remoto é só avisar rsrs =)

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    • rodger

      3 anos atrás

      Obrigado, Luiz :) Pode deixar rsrs

      Reply

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