Terceiros molares

Sem siso ou juízo: o adeus definitivo aos meus terceiros molares

Que o limiar da dor masculino está bem aquém do feminino, todos concordam. É fato que as dores do parto e todas as outras dores exclusivas das mulheres deixam o clube do bolinha sem defesa. Como nunca tive pedras no rim (cujas dores dizem ser as mais próximas das dores da maternidade), minhas cirurgias para retiradas dos terceiros molares tornaram-se minha medida padrão da máxima dor.

E a última aconteceu esta semana.

Vamos ao histórico. Fui premiado ao ter os dois terceiros molares inferiores nascidos horizontalmente. Lá estavam eles, quietinhos, hibernando tranquilamente quando, em uma leve espreguiçada, resolveram abrir um feixe em minha gengiva para dar uma espiada no mundo. Uma leve dor que brevemente transformou-se em infecção e, por fim, marcação de cirurgia.

Tudo muito simples. Dividimos a retirada em duas sessões: na primeira tiramos os dois do lado esquerdo e, na próxima, o vinte e oito e o trinta e dois (sim, os do ládelá). Confiante, agendo a primeira cirurgia: janeiro de 2013.

Ah, se arrependimento matasse.

Foram quatro dias de terror. Aos prantos, sem conseguir me alimentar, com inflamação óssea decorrente do estupro bucal sofrido. Além de nascer na horizontal, o molar era muito duro. Os dentistas até que foram legais comigo, super profissionais. Apenas meu corpo que resolveu tirar uma onda e me testar. Quatro quilos perdidos em três dias e toda a alimentação que consegui ingerir resumiu-se a sorvete e água, necessários para o reabastecimento de minhas bolsas lacrimais.

Como tudo se esvai com o tempo, uma semana depois estava bem, apenas me acostumando com o espaço vazio no fundo de um dos lados da boca. Agora só me restava marcar a próxima cirurgia. Já tinha me comprometido com a data: nunca.

Em meu calendário, o nunca caiu semana passada, quando, após vinte meses de paz, decidi enfrentar o calor do Hades mais uma vez. Veterano, fui logo duplicando a dose da medicação e conferi meu estoque de bolsas de gelo. Novamente, a cirurgia correu bem, os dentistas novamente me trataram com profissionalismo e carinho. Carinho, também conhecido como anestesia cavalar.

Ao invés de quatro dias de terror, foram apenas doze horas. Além das bolsas de gelo, deveria ter solicitado umas bolsas de sangue para reposição. O cordão de prata do efeito anestésico se rompia e juro que vi sua alma fugindo pelo teto. Agora eu teria apenas que esperar estas doze horas passarem. Dormindo oito, preciso só aguentar quatro. Mas como dormir se a cada dois minutos e dezoito segundos eu precisava encher mais um copo de sangue? Resumindo, duas horas de sono e uns mil litros de sangue expelidos. Tá bom, estou exagerando, uns oitocentos.

Ainda sofro com as dores, que perdurarão mais um pouco, talvez até a próxima semana, quando for retirar os pontos.

Meus conselhos? Agradeça aos céus pela anestesia, afinal, Santa Apolônia não teve este privilégio. Tenha juízo e tire seus dentes do siso assim que eles despontarem, antes de transformarem-se em densas peças de marfim com raízes mais profundas que o quinto dos infernos. Ou, se eles estiverem sossegados, não mexa com eles.

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