O Evangelho Maltrapilho

O Evangelho Maltrapilho, de Brennan Manning

“Senhor Jesus, não permitas que eu me deite sem dizer que te amo (…) e protege-me, porque eu poderia hoje te trair”.

Li este livro pela recomendação de Carlos Bregantim, alguém que admiro muito. Após a leitura das 224 páginas, só pude chegar a uma conclusão: é este o Evangelho da Graça. É infantilmente simples entender o significado desta palavra – graça, mas continuo a me questionar sobre a origem do incontrolável anseio do homem por barganhas, por justiça e merecimento.

maltrapilhoO Evangelho de Cristo não é justo. Por justo, considere o senso comum, esse mesmo que você está acostumado. Ele é graça. Graça e justiça são opostas. Se a graça fosse justa, ela não seria graça. Nas palavras de Manning, a graça é “para gente inteligente que sabe que é estúpida, e para discípulos honestos que admitem que são canalhas.”. E eu me encontro nesta definição, infelizmente muito mais do que gostaria. Para muitos, tal frase é profana, um bilhete gratuito para a libertinagem. Mas, para os estúpidos e canalhas por ela amparados, é um bilhete gratuito para a direção oposta. É uma nova chance, um convite para o banquete que está servido.

Uma vez absorvido este novo significado da graça, tudo fica mais leve, pois o pecador tira de si um peso do qual sabe que nunca conseguirá se livrar. Deus, em sua plena sabedoria, age de forma simples, somente abraçando-o e convidando-o para a festa feita em sua homenagem. É natural ao ser humano o sentimento de remorso, a necessidade de autoflagelação, de pagamento de dívida e da compensação pelos atos cometidos. A cruz já realizou toda a compensação e, uma vez aceito o “Está consumado”, as boas atitudes consequentes são resultado de um coração transformado e da gratidão pelo perdão imerecido. Enfim, pela graça.

A penitência é resultado de remorso e não de arrependimento real. A Bíblia está repleta de revelações da graça divina. O filho pródigo, a prostituta Raabe, a negação de Pedro, o povo de Israel… A música Tanto Pra Dizer, de Stênio Marcius, transforma em poesia a relação de Cristo com o pecador: “E entrou num labirinto escuro onde eu tentava me esconder. Curvou-se em minha direção e me estendeu a mão. Eu tinha tanto pra dizer, desculpas tantas pra pedir, mas ele nem sequer me ouviu, puxou-me para a luz”. Chega a dar raiva de tamanha misericórdia e infinito amor incondicional.

Mas, meu amigo, é assim que é.

Separei algumas citações do livro que falam por si só. Deleite-se nelas.

“O pecador salvo está prostrado em adoração, perdido em assombro e louvor. Ele sabe que o arrependimento não é o que fazemos para obter o perdão; é o que fazemos porque fomos perdoados. Ele serve como expressão de gratidão em vez de esforço para obtenção do perdão. Portanto, a seqüência: perdão primeiro e arrependimento depois (e não arrependimento primeiro, perdão depois) é crucial para a compreensão do evangelho da graça.”

“Viver pela graça significa reconhecer toda a história da minha vida, o lado bom e o ruim. Ao admitir o meu lado escuro, aprendo quem sou e o que a graça de Deus significa. Como colocou Thomas Merton: ‘Um santo não é alguém bom, mas alguém que experimenta a bondade de Deus’.”

“Temos o poder de crer quando outros negam; de ter esperança quando outros desesperam; de amar quando outros ferem. Isso e muito mais é pura e simplesmente de presente; não é recompensa a nossa fidelidade, a nossa disposição generosa, a nossa vida heróica de oração. Até mesmo nossa fidelidade é um presente. ‘Se nos voltamos para Deus’, disse Agostinho, ‘até mesmo isso é um presente de Deus’.”

“Minha consciência mais profunda a respeito de mim mesmo é de que sou profundamente amado por Jesus Cristo e não fiz nada para consegui-lo ou merecê-lo.”

“Ela nos atinge quando andamos pelo vale sombrio da falta de significado e de uma vida vazia… Ela nos atinge quando, ano após ano, a perfeição há muito esperada não aparece, quando as velhas compulsões reinam dentro de nós da mesma forma que têm feito há décadas, quando o desespero destrói toda alegria e coragem.”

“Algumas vezes naquele momento uma onda de luz penetra nossas trevas, e é como se uma voz dissesse: ‘Você é aceito. Você é aceito, aceito pelo que é maior do que você, o nome do qual você não conhece. Não pergunte pelo nome agora; talvez você descubra mais tarde. Não tente fazer coisa alguma agora; talvez mais tarde você faça bastante. Não busque nada, não realize nada, não planeje nada. Simplesmente aceite o fato de que você é aceito’. Se isso acontece conosco, experimentamos a graça”

“Com freqüência me perguntam; ‘Brennan, como é possível você ter se tornado um alcoólatra depois de ter sido salvo?’ É possível porque eu me senti deprimido e amargurado pela solidão e pelo fracasso, porque me senti desencorajado, incerto, esmagado pela culpa e tirei meus olhos de Jesus. Porque meu encontro com Cristo não me transfigurou num anjo. Porque a justificação pela graça significa que meu relacionamento com Deus foi consertado, não que me tornei o equivalente a um paciente sedado em cima de uma mesa.”

“Quando gente esmagada por esse conceito de Deus [O Deus do cristão legalista] acaba falhando — como inevitavelmente acontece — ela em geral espera punição. Ela por isso persevera em práticas religiosas ao mesmo tempo em que luta para manter uma imagem oca de um eu perfeito. A luta em si é exaustiva. Os legalistas nunca são capazes de viver à altura das expectativas que projetam em Deus.”

“Não devemos jamais permitir que a autoridade de livros, instituições ou líderes substitua a autoridade de conhecer Jesus Cristo pessoalmente e diretamente.”

“Em termos de crescimento espiritual, a convicção-fé de que Deus aceita-me como sou é um tremendo incentivo para que eu melhore. Quando nos aceitamos pelo que somos diminui em nós a fome de poder e da aceitação dos outros, porque nossa intimidade conosco reforça-nos o senso de segurança. Deixamos de nos preocupar em ser poderosos ou populares. Deixamos de temer as críticas, porque aceitamos a realidade de nossas limitações humanas.”

“Mas a salvação que Jesus trazia não podia ser conquistada com esforço. Não teria como haver qualquer barganha com Deus numa atmosfera mesquinha de mesa de pôquer: ‘Eu fiz isso, agora você me faz aquilo’. Jesus destrói por completo a noção jurídica de que nossas obras merecem qualquer pagamento em troca. Nossas insignificantes obras não nos dão o direito de regatear com Deus. Tudo depende do seu bom prazer.”

“O retrato de Jesus traçado pelos evangelhos é de alguém que abraçava a vida e especialmente as outras pessoas como dádivas amorosas das mãos do Pai.”

“Escreve Burkhardt: ‘Temo pelo advogado cuja única vida é o imposto corporativo, pelo médico cuja existência inteira é a próstata de outra pessoa, pelo executivo cuja única responsabilidade é perante seus acionistas, pelo atleta que aposta tudo num único alvo, o teólogo que pensa que o mundo pode ser salvo pela teologia… Uma mente fechada mata casamentos e relações humanas; amortece sentimentos e sensibilidades; cria uma igreja que vive em mil e um túneis, sem nenhuma comunicação e sem saída’.”

“Os fariseus separavam-se de todos que não eram fiéis à lei e à tradição, a fim de formar comunidades fechadas, o fiel remanescente de Israel. O nome ‘fariseus’ significa ‘os separados’, isto é, os santos, a verdadeira comunidade de Israel. Sua moralidade era legalista e burguesa, questão de recompensa e punição. Deus amava e recompensava os que guardavam a lei e odiava e punia aqueles que não guardavam. A dra. McKenna expôs a posição dos saduceus, em sua maior parte conservadores e compostos em grande parte pela aristocracia abastada; os zelotes, que viam a submissão a Roma como infidelidade para com Deus; os essênios, que rejeitavam todos que não pertenciam à sua seita. Esses últimos separavam-se completamente da sociedade e viviam uma vida de ascetismo e celibato no deserto. Todos os de fora deviam ser odiados como filhos das trevas. O amor e o respeito eram reservados para os membros do grupo deles — os filhos da luz.”

“O maltrapilho cristão reconhece, junto com MacBeth: ‘A vida nada mais é do que um pobre ator que pavoneia e exaure sua hora sobre o palco e depois não é ouvido mais’. Da mesma forma que todo homem inteligente sabe que e estúpido, o cristão desperto sabe que é maltrapilho.”

“Embora a verdade nem sempre seja humildade, a humildade é sempre verdade: o reconhecimento sem rodeios de que devo minha vida, meu ser e minha salvação a outro. Esse ato fundamental jaz no âmago de nossa reação à graça.”

“Donald McCullough coloca a coisa da seguinte forma: A graça quer dizer que no meio da nossa peleja o árbitro apita anunciando o término da partida. Somos declarados vencedores e mandados para o chuveiro. Encerrados estão todos os esforços para obter-se o favor de Deus; cancelado está todo o suado empenho para garantir valor próprio;”

“O homem ou mulher nobres do evangelho reconciliaram-se com sua existência falha. Estão conscientes de sua falta de inteireza, sua incompletude, o simples fato de que não apresentam de forma alguma os requisitos necessários. Embora não apresentem desculpa para o seu pecado, estão humildemente conscientes de que o pecado é precisamente o que os levou a se atirarem ã mercê do Pai. Eles não fingem ser mais do que são: pecadores salvos pela graça.”

“Quando damos a qualquer coisa mais prioridade do que damos a Deus, cometemos idolatria. Portanto, todos cometemos idolatria incontáveis vezes ao dia.”

“De modo geral, o mundo perdeu o senso de assombro. Crescemos. Já não perdemos o fôlego diante de um arco-íris ou do perfume de uma rosa, como acontecia antes. Ficamos maiores e todo o resto ficou menor, menos impressionante. Tornamo-nos apáticos, sofisticados e cheios da sabedoria do mundo. Não deslizamos mais os dedos sobre a água, não gritamos mais para as estrelas nem fazemos caretas para a lua. Água é H2O, as estrelas foram classificadas e a lua não é feita de queijo. Graças à televisão via satélite e aos aviões a jato, podemos visitar lugares que no passado eram acessíveis apenas por Colombo, Balboa e outros exploradores intrépidos.”

“Tomás de Aquino dizia que o esplendor de uma alma em graça era tão sedutor que superava em beleza todas as coisas criadas.”

“Se Israel é infiel, Deus permanece fiel contra toda a lógica e contra todos os limites de justiça, apenas porque ele é. O amor explica a feliz irracionalidade da conduta de Deus. O amor tende a ser irracional às vezes. Ele persevera a despeito da infidelidade. Ele floresce em ciúme e ira — que delatam um interesse sincero. Quanto mais complexa e emocional torna-se a imagem de Deus na Bíblia, maior ele se torna, e mais nos aproximamos do mistério da sua indefinibilidade.”

“Em primeiro lugar, o amor de Cristo e de seu evangelho de graça chama a uma decisão pessoal, livre e não-convencional. Responder é reconhecer que o outro tomou a iniciativa e lançou o convite. A abertura do outro tornou a resposta necessária.”

“Na oração Jesus nos desacelera, ensina-nos a contar os poucos dias que temos e presenteia-nos com sabedoria. Ele nos revela que estamos tão envolvidos com o que é urgente que acabamos negligenciando o essencial. Ele põe um fim a nossa indecisão e liberta-nos da opressão dos falsos prazos finais e de uma visão míope.”

“Quando disse ‘Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei’, Jesus estava pressupondo que ficaríamos cansados, desencorajados e desanimados ao longo do caminho. Essas palavras são um testemunho tocante da humanidade de Jesus. Ele não tinha qualquer noção romântica do custo do discipulado. Ele sabia que segui-lo era tão pragmático quanto o dever, tão exigente quanto o amor. Sabia que a dor física, a perda dos entes queridos, o fracasso, a solidão, a rejeição, o abandono e a traição poderiam minar nosso espírito; que chegaria o dia em que nossa fé deixaria de oferecer qualquer motivação, segurança ou conforto; que a oração careceria de qualquer senso de realidade ou de progresso; que ecoaríamos Teresa de Ávila: ‘Senhor, se é esse o modo como o Senhor trata os seus amigos, não me admira que tenha tão poucos!'”

“Sim, nós de fato nos sentimos culpados pelos nossos pecados, mas a culpa saudável é a que reconhece o malfeito e sente remorso, mas em seguida abraça o perdão oferecido. A culpa saudável concentra-se na percepção de que tudo foi perdoado, de que o erro foi redimido.”

“Mas ouça, há algo maior neste mundo do que nós, e esse algo maior é cheio de graça e misericórdia, paciência e inventividade. No momento em que o foco da sua vida muda da sua maldade para a bondade dele, o momento em que a pergunta deixa de ser ‘O que foi que eu fiz?’ e passa a ser ‘O que ele pode fazer?’, a libertação do remorso pode acontecer; milagre dos milagres, você pode perdoar a si mesmo porque está agora perdoado, aceitar a si mesmo porque é agora aceito, e começar a reconstruir os próprios lugares que você uma vez colocou abaixo. Essa graça é o segredo de sermos capazes de perdoar a nós mesmos. Confie nela.”

“Caí vítima do que T. S. Eliot chama de ‘o maior pecado de todos’: fazer a coisa certa pelo motivo errado.”

“O futuro espiritual dos maltrapilhos consiste não em negar que somos pecadores, mas em aceitar essa verdade com clareza crescente, regozijando-nos no incrível anseio de Deus de nos resgatar a despeito de tudo.”

“Quanto tempo será necessário até que descubramos que não somos capazes de ofuscar a Deus com nossas realizações? Quando reconheceremos que não precisamos e não temos como comprar o favor de Deus? Quando reconheceremos que não temos de forma alguma os requisitos necessários e aceitaremos alegremente o dom da graça? Quando iremos apreender a empolgante verdade de Paulo: ‘sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus’ (Gl 2:16)?”

“A que se assemelha a liberdade no Espírito? ‘Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade’ (2Co 3:17). A liberdade em Cristo produz uma saudável independência da pressão do grupo, da tentação de agradar e do cativeiro da reverência a seres humanos.”

“Nenhuma criancinha é capaz de colorir mal; tampouco nenhum filho de Deus é capaz de fazer uma oração ruim. ‘Um pai se deleita quando seu pequenino, deixando de lado seus brinquedos e amigos, corre até ele e atira-se em seus braços. Enquanto abraça seu pequenino junto de si, o pai pouco se importa se a criança está olhando ao redor, sua atenção passando rapidamente de uma coisa para a outra, ou apenas se aconchegando para dormir. Essencialmente, a criança está escolhendo estar com seu pai, confiante do amor, do cuidado e da segurança que são seus nos braços dele. Nossa oração é bem semelhante. Nós nos aconchegamos nos braços do Pai, em suas mãos amorosas. Nossa mente, nossos pensamentos, nossa imaginação podem saltar de um lugar para outro; podemos até mesmo cair no sono; porém estamos essencialmente escolhendo permanecer durante esse tempo na intimidade com nosso Pai, entregando-nos a ele, recebendo seu amor e cuidado, deixando que ele desfrute de nós à vontade. E oração simples. E oração bem infantil. E oração que nos abre para todos os deleites do reino’.”

“O segundo chamado é uma conclamação a um compromisso mais profundo e mais maduro de fé, onde a ingenuidade, o primeiro fervor e o idealismo não-verificado do primeiro compromisso são temperados com dor, rejeição, fracasso, solidão e auto-conhecimento. O chamado pergunta: você realmente aceita a mensagem de que Deus está perdidamente apaixonado por você? Creio que essa pergunta esteja no cerne da nossa habilidade de amadurecer e de crescer espiritualmente. Se no nosso coração não cremos realmente que Deus nos ama como somos, se estamos ainda maculados pela mentira de que podemos fazer algo para que Deus nos ame mais, estamos rejeitando a mensagem da cruz.”

“O que faz discípulos autênticos não são visões, êxtases, domínio de capítulos e versículos da Bíblia ou um sucesso espetacular no ministério, mas a capacidade de manter-se fiel. Fustigados pelos ventos volúveis do fracasso, surrados por suas próprias emoções rebeldes e machucados pela rejeição e pelo ridículo, os discípulos autênticos podem ter tropeçado e caído com freqüência, experimentado lapsos e relapsos, ter se deixado algemar aos prazeres da carne e se aventurado em territórios distantes. Mas permanecem voltando para Jesus.”

“Toda a nossa compreensão dele está baseada num toma-lá-dá-cá de amor permutado. Ele nos amará se formos bons, éticos e diligentes. Mas nós trocamos as bolas: tentamos viver de modo a que ele nos ame em vez de viver porque ele nos amou.”

“O perdão de Deus é uma libertação gratuita da culpa.”

“Que palavra de encorajamento, consolo e conforto! Não sondamos nosso coração e analisamos nossas intenções antes de voltar para casa. Abba quer apenas que apareçamos. Não temos de fazer hora na taberna até que surja a pureza de coração. Não temos de ser retalhados pelo pesar ou esmagados pela contrição. Não temos de ser perfeitos, ou mesmo muito bons antes que Deus nos aceite. Não temos de chafurdar na culpa, na vergonha, no remorso e na autocondenação. Mesmo se alimentamos uma nostalgia secreta pela terra distante, Abba desmorona em nosso pescoço e nos beija.”

“Mesmo se voltamos porque não conseguimos nos sustentar por nós mesmos, Deus nos acolhe. Ele não busca explicações para nossa repentina aparição. Ele está contente que estejamos lá e quer dar-nos tudo que desejamos.”

“A juventude não é um período de tempo. E um estado de espírito, um resultado da vontade, uma qualidade da imaginação, uma vitória da coragem sobre a timidez, do gosto pela aventura sobre o amor ao conforto. Um homem não precisa ficar velho porque viveu um determinado número de anos. Os anos podem enrugar a sua pele, mas o desertar dos ideais enruga a alma. As preocupações, os medos, as dúvidas e o desespero são os inimigos que devagar nos fazem prostrar em direção à terra e transformam-nos em poeira antes da morte. A sua vontade permanece jovem enquanto você está aberto para o que é belo, bom e grande; receptivo para as mensagens de outros homens e mulheres, da natureza e de Deus. Se um dia você se tornar amargo, pessimista e consumido pelo desespero, Deus tenha piedade da sua alma de velho.”

“A igreja professa dos maltrapilhos precisa juntar-se a Madalena e a Pedro no testemunho de que o cristianismo não é primariamente um código moral, mas um mistério permeado de graça; não é essencialmente uma filosofia do amor, mas um caso de amor; não é agarrar-se com unhas e dentes a regras, mas é receber um presente de mãos abertas.”

“Os maltrapilhos nunca desprezam sua pobreza material e/ou espiritual, porque se consideram incomensuravelmente ricos. Eles encontraram o tesouro enterrado no campo (v. Mt 13:44). Nada se compara ao reino de Deus. Aos olhos deles, nada tem mais valor. Pesos e medidas não bastam. Balanças desmoronam. Toda mensuração desaba diante dessa infinitude. Esse é o segredo do maltrapilho, que cristãos nominais não compreendem, mas pelo qual mártires entregaram sua vida. Pelo reino de Deus, milhares e milhares tiveram suas possessões confiscadas, terras tomadas; famílias, carreiras e bons nomes sacrificados.”

“A igreja maltrapilha é um lugar promissor e cheio de possibilidades, de aventura e descoberta, uma comunidade de compaixão em movimento, estrangeiros e exilados numa terra estranha a caminho da Jerusalém celestial. Os maltrapilhos são peregrinos que passam a noite no hotel da terra, sem desfazer as malas e prontos para partir. Reagrupar e entrincheirar, rastejar e debater não estão entre suas poses e posturas.”

“Com um Deus cujo nome é Misericórdia, não é de admirar que a gratidão ultrapasse qualquer outra atitude ao longo de nossa jornada espiritual. Não passamos pela vida alheios ao preço pago pela nossa libertação. Uma reflexão ponderada traz à memória numerosos resgates e curas. ‘Se pudéssemos contar os medos, tanto grandes quanto pequenos, que já nos assolaram, e agradecêssemos em seguida a Deus cada resultado temido que nunca se materializou’, observou John Kavanaugh, ‘não haveria fim para a gratidão a que chegaríamos’.”

“Num salmo pungente em que expressa confiança pueril em Deus, Davi diz: ‘Fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo’ (Sl 131:2).”

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