Telmo Martino, meu grande amigo-avô

O ano é 2001. Aos dezenove tive a grande sorte de ser contratado como estagiário em uma empresa que nasceu grande, o iG, com promissores profissionais em minha área de estudo, o Design mas, principalmente, a sorte do convívio e aprendizado pelo contato com grandes nomes da Internet e do jornalismo. Nizan Guanaes, Aleksandar Mandic, Demi Getschko, Matinas Suzuki Jr, Leão Serva, além de tantos outros jovens talentos que já chefiavam departamentos e alavancavam o maior sucesso da Internet brasileira na época.

Meu trabalho diário era tratar imagens de eventos, criar layouts, programar, traduzir textos em inglês e ajudar os jornalistas da redação dos sites Último Segundo e Babado (atualmente Gente) em problemas diversos com o computador. Em um belo dia, eis que Matinas e Mariana Castro, na época diretora do site Babado e minha chefe, adentram a sala acompanhados por um senhor com cabelos extremamente brancos, andando com certa dificuldade, apresentando-lhe aquilo que seria seu novo local de trabalho. Obviamente que todos em um andar repleto de estudantes de jornalismo estranharam sua presença lá. Talvez eles o conhecessem ou tivessem estudado sobre ele mas eu, apesar de ainda não saber de quem se tratava, impressionei-me com duas coisas: sua espontaneidade ao olhar para cada canto do recinto e seu sorriso destemido.

Seu computador estava ao lado de minha estação de trabalho. Ou seja, seria meu mais novo colega no iG. Durante nossa apresentação, sua primeira gargalhada.

  • Como um rapaz imberbe como você poderia se chamar Glauber Rodger?

A partir de então passou a me chamar de Glauber Rock, alusão ao cineasta brasileiro. E o apelido pegou. Nunca gostei de alcunhas, mas o jeito carinhoso com que ele me chamava me fez gostar cada vez mais de ser chamado de “Glauber Rock”. No início, o ajudava com assuntos básicos de informática. Configuração e envio de e-mail, utilização do Word, publicação de conteúdos e, entre essas ajudas, muita conversa e risadas. Curioso, logo pesquisei sobre sua história e espantei-me com seu currículo e histórico. Inevitavelmente, a relação de trabalho transformou-se em amizade. Tão sincera que recebi de presente uma nota sua com algumas mentirinhas apenas para me elogiar. É óbvio que mandei enquadrar o texto e até hoje o tenho em meu escritório.

Telmo tinha um jeito ácido. Demasiadamente ácido. Isso intimidava – e afastava – as pessoas. Ele era do tipo que poderia dizer, sem papas na língua, algo desagradável a qualquer um. Seus textos no Jornal da Tarde, escritos com tanta elegância e propriedade, tinham força para criar um fenômeno do cenário paulistano ou jogar no ostracismo qualquer um.

Eu gostava dele. Era simples assim. Sua autenticidade – e seu sorriso – impressionavam. Engraçadíssimo, ele foi capaz de dar ao Fausto Silva, como presente de aniversário na época em que ele era realmente gordo, uma balança que mostrava a frase “HELP!” quando alguém nela subisse. Ácido e hilário.

Infelizmente, também impressionava a sua solidão. Como poderia um homem com mais de setenta anos (mas que aparentava muito mais devido ao AVC sofrido no fim dos anos 80) não ter uma esposa, filhos? Ele morava em um antigo, porém espaçoso apartamento nos Jardins com seu cachorrinho Dudu, um lindo – e bravo – Scottish Terrier e era muito bem cuidado pela Nancy, sua empregada que o acompanhara desde o Rio de Janeiro, sua cidade natal. Passei a visitá-lo periodicamente e, em um determinado dia, convidei-o para ir à minha casa, pois meus pais queriam conhecê-lo, de tanto que eu contava sobre nossa rotina no iG.

Em princípio ele relutou, pois estava preocupado com o Dudu, mas rapidamente o convenci com a sugestão “o Dudu vem conosco”. E assim tivemos um domingo maravilhoso, em que ele sentiu-se amado, abraçado por uma família, e Dudu pôde conhecer meus dois cachorrinhos. A amizade então continuou crescendo. Ele me perguntava sobre alguma nota que estava escrevendo e eu ficava sem graça ao tentar dissuadi-lo da ideia de espetar algum famoso daquela maneira, afinal, certamente algum processo pesado cairia sobre ele.

Tenho lembranças muito agradáveis de Telmo. Seu carinho por Matinas Suzuki, sua admiração pela generosidade de Fausto Silva, seus momentos agradáveis com Rosamaria Murtinho, o casal Carlos Alberto Riccelli e Bruna Lombardi, sua contemplação pelo talento de Washington Olivetto e Rogério Fasano (e, claro, pelos pratos de seus restaurantes, num dos quais tive o prazer de jantar, com sua companhia), sua amizade com o escritor Ruy Castro e a estilista Gloria Kalil, além das muitas histórias vividas com seu grande amigo Paulo Francis. Meu nome entrou em sua lista de amizades ao final de sua vida, quando enxerguei um amigo-avôzinho que tinha muito para compartilhar, e ele viu “o filho que não tive”, como me dissera uma vez e arrancara lágrimas de meus olhos.

Senti muito quando ele saiu de São Paulo para retornar ao Rio de Janeiro. Nosso contato não seria mais constante, mas sua voz ao telefone sempre me trouxe refrigério. Apesar de sempre percebê-lo um pouco mais frágil e triste pela solidão, cada vez que conversávamos era como se fôssemos nos ver no dia seguinte, no trabalho. Com ele compartilhei meus desafios profissionais, emocionais e pessoais e tive a imensa alegria de apresentar-lhe minha esposa, com quem foi tão doce ao conhecê-la, por vê-la chorando após ter sua mala levada por um taxista quando fomos visitá-lo em seu apartamento no Flamengo. Tive a oportunidade de levar-lhe um bolinho feito por minha mãe, também carioca, em seu 80º aniversário.


Glauber Rodger e Telmo Martino no Rio de Janeiro No 80º aniversário do Telmo, no Rio de Janeiro.

A vida tem seu ciclo. Uma geração antes da minha o enaltecia e admirava. Vinte anos depois, ele estava só. Pessoas com grande coração, algumas mencionadas neste texto, o ajudaram com uma colocação profissional, com viagens inesquecíveis, com sustento diário, enfim, com companhia, altruísmo e gratidão.

A mim coube entregar-lhe amor.

Saudades, Telmo, meu grande amigo-avô.

Telmo Evangelista Martino
★ 10/01/1930
 ✝  03/09/2013 (83 anos)

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6 Comments

  1. André Bagatini

    6 anos atrás

    Glauber Rock… me impressiona o sentimento contido nesse texto, Admiração, carinho, altruísmo… Fiquei emocionado com o Texto, meus sentimentos… que Deus tenha seu amigo Telmo em seus braços. Fique com Deus.

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    • rodger

      6 anos atrás

      Obrigado pela mensagem, André. Grande abraço e fique com Deus também.

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  2. Eduardo Guisard

    6 anos atrás

    Olá Rodger, Telmo era meu padrinho de batismo….ele me falava de você. Abraços. EG

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    • rodger

      6 anos atrás

      Grande abraço, Eduardo. Fico muito feliz em receber esta notícia 😉

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  3. Marcelo Cintra

    6 anos atrás

    Quando lhe conheceu ele no mesmo dia me contou. Era sempre meu hóspede e eu consegui aquele apartamento onde morava na rua da Consolação que era onde morava minha avó. A contratação dele para o iG/Matinas, foi feita por meu intermédio. se sentia inseguro em escrever para a nova midia. bobagem; era um genio das palavras. Ele realmente te adorava. Dos amigos do passado ele rompeu com vários pelas notas que escrevia sem resistir. Um deles foi o Washington, uma de suas criações. Esses poucos tolerantes. A você ele só fazia elogios. Adorou o dia que passou com seus pais! Linda homenagem. Um abraço e boa sorte na vida.

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    • rodger

      6 anos atrás

      Marcelo, lembro-me bem de você também. Telmo falou sobre como o ajudou em seu retorno a São Paulo. Acabo de sair do cemitério onde foi enterro e, apesar de triste, senti-me aliviado pois tive a certeza de que pude aquecer um pouco seu coração em seus últimos anos de vida. Muito obrigado pela mensagem.

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