Os demônios de Casagrande são mais comuns do que se imagina

“Como jogador, tive de matar um leão por dia para vencer adversários, mas agora tenho de matar um leão por dia para combater um inimigo muito mais forte do que eu. É a luta pela vida”.

A plena consciência de sua situação e a constante negação quanto à necessidade de emergencial ajuda, a perda de um grande amigo, derrotado pelo vício, a família desestruturada e alguns encontros quase definitivos com a morte. Estas são algumas das situações recentes pelas quais passou Walter Casagrande Junior, ou simplesmente Casão, como chamado pela fiel massa de torcedores que sempre o admirou, um sobrevivente da infernal guerra contra as drogas, não apenas por sua vontade, mas principalmente pela insistência daqueles que se mostraram presentes quanto realmente importa.

Escancarar sua alma para o mundo é tarefa para poucos. Corajosos. Casagrande o fez com maestria, mostrando que vitoriosos também passam por derrotas. Às vezes muitas. Ao falar sobre seu vício para mais de 40 milhões de espectadores em horário nobre do domingo e depois detalhar cada episódio de sua vida nas páginas de um livro o tornam membro definitivo do panteão de minhas admirações. Alguns podem perguntar: pra quê tanta exposição? Ele mesmo responde: “É fundamental passar adiante a experiência, dividir as dores da dependência e alertar para os perigos de um vício frenético, sem preconceitos, desvios ou mentiras. A verdade ajuda a sanidade.”

Entretanto, não são apenas os maus momentos que foram retratados no livro. O belo texto de Gilvan Ribeiro descreve suas aventuras com os amigos de infância, sua caminhada desde as divisões de base do Corinthians até as temporadas vividas na Europa, sua rebeldia “rock and roll” no jeito de se vestir e agir, sua liderança na Democracia Corinthiana, sua coragem no enfrentamento da ditadura e consequente participação no movimento Diretas Já e fundação do Partido dos Trabalhadores.

De leitura agradável, porém admoestadora, o livro apresenta os perigos trazidos pela utilização das drogas que, assim como Deus, não fazem acepção de pessoas, ou seja, sejam pacatos ou famosos, uma vez mergulhados, dificilmente conseguem desgrudar-se de suas teias. Por isso que em muitas vezes o nome do grande jogador Sócrates foi mencionado. Outro grande amigo e líder em tudo que participou em sua vida, uma peça rara no mundo do futebol, capaz de negar propostas de grandes clubes enquanto não terminasse sua faculdade de medicina, mas que, por fim, negou sua dependência do álcool e morreu vitimizado por seus danos irreversíveis.

Por fim, com seu futebol elegante, sua dedicação às causas que abraçava e seu enfático posicionamento político, Casagrande tornou-se ícone pop do futebol, entretanto, o que mais me impressionou ao ler as páginas deste livro foi sua honestidade, de forma que foi capaz de assumir toda a culpa pelos atos praticados, ou seja, nunca atribuiu seus erros às más companhias e “tem consciência de que o mal não vem de fora. Encontra-se incrustado na alma e no metabolismo de cada um”.

Nenhum comentário.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *