Evangélicos em Crise, de Paulo Romeiro

livroTriste constatação perceber que um livro escrito há quase vinte anos continua mais do que atual. A única alteração em seu conteúdo é que houve mudanças – infelizmente, para pior. Este livro de Paulo Romeiro, escrito em 1995, deveria ser um alerta à igreja brasileira, um convite à blindagem de suas portas e janelas. Entretanto, seu papel foi mais profético, ou seja, retratar que a nova situação vigente na esfera evangélica seria análoga à situação da igreja de Éfeso, escrita em Apocalipse 2:1-7.

Na década de 1990, a crítica era a líderes deturpadores da Palavra de Deus (alguns destes sob os holofotes até os dias atuais), como Kenneth Hagin, Benny Hin, Edir Macedo, Valnice Milhomens, dentre outros, e a seitas pseudo-cristãs que pregavam loucuras como o culto à personalidade, a comercialização de milagres, a maldição hereditária, a demonização do Evangelho com a batalha espiritual, a teologia da prosperidade e a determinação da data para o retorno de Cristo.

Atualmente, estamos em meio a Malafaias, Felicianos e muitos outros (além dos que subsistem até os dias de hoje) que insistem em inventar novas modas, afastando o simples povo do verdadeiro Jesus e apresentando ao mundo um deus que certamente não é o todo-poderoso, perfeito em amor, paz e mansidão. Seja por falta de conhecimento (Oséias 4:6) ou por má índole (a maioria, IMO), infelizmente o resultado são crentes frios, vislumbrando um deus que de Deus nada tem e ateus, por enxergarem uma imagem errônea do Criador.

Dentre os temas abordados nesta elucidativa obra, destaco alguns trechos que retratam o que era e que continua.

Culto à personalidade

“Desde jangais da África, desertos da Arábia, até ao frenesi das grandes metrópoles, adoradores podem ser encontrados aos bilhões, ora prostrando-se diante de uma vaca sagrada, de algum amuleto, ou altar, ora diante de algum líder religioso ou guru. O interessante é que, quando o ser humano não adora em espírito e verdade (Jo 4:23,24), ele corre o risco de procurar ser adorado.”

Sempre foi assim. O lado fraco busca algo palpável e sobrenatural para adorar (até o povo hebreu, quando do Êxodo, ao ficar um tempo sem receber sinais divinos construiu para si um bezerro de ouro) e o lado forte (manipulador) busca ser venerado ao perceber a fraqueza do outro. Basta desviar-se do verdadeiro alvo para algum discípulo de Cristo sentir-se mais importante do que o próprio Cristo. Cedem seus corações à bajulação. Enquanto escrevo essas palavras, infelizmente, vejo numerosos exemplos de pastores e celebridades gospel que se encaixam neste tipo de culto, quando, na verdade, deveriam agir como Sadu Sundar Singh, o místico da Índia, o apóstolo dos pés sangrentos, quem, ao chegar a uma vila e ser perguntado se seria ele Jesus Cristo, respondeu: “Não, é claro que não. Eu sou apenas o jumento de Jesus”.

A comercialização de milagres

Edir Macedo, Valdomiro Santiago… Com uma breve busca à memória (ou aos canais da tevê aberta) pode-se chegar a outros nomes que transformam a eterna graça de Deus em macumba. São rosas abençoadas, águas bentas e óleos ungidos que trazem asco àquele que tem o mínimo conhecimento da Palavra de Deus e de Seu modus operandi.

De fato, pela tal falta de conhecimento, pessoas escolhem seguir a criação e não o criador. E, conforme dito por Romeiro, “assim, se alguém colocar um preço na sua alma, o inimigo estará disposto a pagar por ele. Se é de uma cura, ou de uma mudança de situação ou circunstância que a pessoa precisa para que ela nunca venha a ter um encontro de salvação com Jesus, o inimigo poderá prover tais coisas”.

Àqueles enganados por este tipo de prática ficam as palavas de Jesus à mulher samaritana: “Mas vem a hora, e já chegou, quando os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4:23,24).

A maldição hereditária

Com o perdão da palavra, uma das maiores bullshits das seitas pseudoevangélicas, esta heresia não merece muita atenção. Ela prega que pessoas podem ser amaldiçoadas, vítimas de atitudes e pecados de seus antepassados. Para isso, Romeiro responde com o simples, ou seja, com a Bíblia: “Tal ensino não encontrou espaço também nos escritos do apóstolo Paulo. Ao contrário, quando escreveu aos coríntios pela segunda vez, declarou com muita certeza: “E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2 Co 5:17). Aos efésios, ele afirma: “Bendito o Deus e pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” (Ef 1:3). Onde existe espaço para maldições na vida de um cristão diante de uma declaração como esta?”

A demonização do Evangelo com a batalha espiritual

Nos broadcasts dos “shows da fé” incessantemente apresentados em cultos e meios de comunicação, Satanás chega a ser mais importante do que Deus. O poder do anjo caído parece ser superior ao dAquele cuja vontade é sempre que seus filhos estejam ligados em amor, na mais simples e pura paz. Apesar de a batalha espiritual ser algo real, citada na Bíblia, a impressão que fica é de que estes líderes desejam prender pessoas a seus ministérios pelo medo.

Romeiro cita um artigo de Eric Vil que explica esta questão: “Tanto bíblica quanto historicamente, as batalhas espirituais são vencidas por viver para Deus e falar com ele na mais diligente intercessão, ao invés de falar com Satanás”. Una análise do livro Batalha Espiritual, do pastor Caio Fábio, que publiquei no blog em 2009, apresenta uma visão coerente e elucidativa sobre o tema.

Por fim, o livro apresenta que cristãos que ficam no leite, ou seja, aqueles que rejeitam o estudo da Palavra e aprofundamento no conhecimento a fim de adquirir sabedoria e propriedade para refutar as falácias do pseudoevangelho, facilmente serão levados por quaisquer ventos que assoprem em sua direção (e para qualquer direção).

“Se não houver parâmetros bíblicos, nunca se sabe até onde vão chegar os desvios doutrinários e a paranoia da guerra espiritual. Todo cristão precisa ter em mente também que a maior batalha espiritual que ele pode desenvolver é manter a sua comunhão com Deus”.

A determinação da data para o retorno de Cristo

Essa história é velha… A mais recente foi a “profecia” maia, que levou pessoas ao desespero e, em alguns casos, a atitudes drásticas. Em tempos anteriores, seitas espalhadas pelo mundo que culminaram com suicídios em massa ou perda total da fé, religiões teoricamente bem consolidadas e respaldadas pela Palavra deixando-se levar por “visões e estudos” de algum membro “iluminado”, enfim, a lista também não é pequena.

Um caso curioso foi o ano de 999, em Roma, quando houve um derramamento de amor. Pessoas perdoaram dívidas, presos foram libertos, comida era distribuída gratuitamente pelos armazens próximos à basílica de São Pedro e, após a missa da meia-noite, um silêncio mortal que cai sobre os presentes… Então, “finalmente, quando o relógio deu a primeira batida depois da meia-noite, os sinos da igreja começaram a tocar. Entre lágrimas e risos, esposos e esposas se abraçaram. Os amigos trocaram o “beijo da paz”. Os inimigos fizeram as pazes. Mas logo a vida voltou a seu ritmo normal (…) e os comerciantes pararam de distribuir suas mercadorias. Os prisioneiros foram recapturados e colocados de volta nas prisões. As dívidas foram lembradas. E a vida continuou como se nada tivesse acontecido”.

Estas “profetadas” só servem para afrontar a Palavra de Deus (Mt 24:36) e, como mau fruto, “prejudicar o testemunho cristão, pois torna-se mais difícil evangelizar quando a credibilidade da Palavra de Deus é questionada pelos incrédulos devido às previsões anunciadas pelos cristãos que não se cumprem”.

“A preocupação com o futuro diminui quando temos a certeza de que Jesus Cristo já está no futuro nos esperando. Quando lá chegarmos, sua mão e sua presença estarão conosco nos guardando e sustentando, como ele mesmo garantiu aos discípulos: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28:20)”.

A solução

Alimento sólido é a Palavra de Deus. Somente com seu consumo contínuo que cristãos estarão focados em quem realmente importa – Jesus Cristo – e não em homens, doutrinas ou amuletos. Os resultados desta receita são santificação e discernimento, ou, em palavra prática, uma infalível blindagem contra o besteirol evangélico que surge a todo momento.

Será que daqui a vinte anos as pessoas estarão preparadas? Espero que sim.

2 Comments

  1. Francisco de Paulo

    5 anos atrás

    O Pastor Paulo Romeiro é uma reserva moral do Verdadeiro Evangelho
    vou comprar este livro…Desejo um dia se Deus permitir conhecer este sé
    rio Homem de Deus.

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