Prioridades invertidas, chacoalhões divinos e paradoxos da vida

Inevitavelmente a vida da maioria das pessoas possui ciclos semanais. A minha não é diferente e há um bom tempo estes ciclos têm se renovado quase que uniformemente, sem grandes alterações. Este último findou-se de maneira diferente, abrupta, o que me levou a escrever sobre estes três temas mencionados no título do texto.

Na manhã desta última sexta-feira tive a imensa alegria de presenciar o nascimento da primogênita de um casal de grandes amigos (André e Camila). Gabrielle, pura e frágil, nascida com 45cm e 2,8kg. Emocionei-me ao ver o milagre da vida estampado na pequeneza de seu corpinho e no sorriso de seu pai ao vê-la sendo preparada pela enfermeira, antes de entregá-la à mãe, que aguardava ansiosamente em seu quarto. Sorrisos da alegria nos avós, todos celebrando a chegada da primeira neta. Tudo muito lindo.

Enfim, chegando ao primeiro paradoxo do dia, no mesmo horário em que celebrávamos a chegada de mais uma criaturazinha criada à imagem e semelhança de Deus, recebia a notícia da inesperada morte de uma grande mulher. “Tia Eliene”, como era chamada por todos que a conheciam, teve complicações devido a uma cirurgia e infelizmente não resistiu e foi chamada pelo Senhor. Alegria e tristeza, prazer com a chegada e dor pela partida prematura. Sentimentos opostos aos quais estamos sujeitos a todo instante.

Uma situação como essa é incomum, mas Deus se utiliza das mais diversas formas para nos confortar, ajudar e – também – corrigir, afinal, como Ele mesmo disse, “Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te.” (Apocalipse 3:19). A vida é efêmera e frágil. Nós somos, por natureza, seres imediatistas e egoístas. Por regra, o importante é MEU hoje, MEU sentimento e MINHA vontade. Para Eliene, o importante era o outro, o importante era o bem que poderia ser feito para o outro, o importante era lutar a luta travada pelo outro. E com essas qualidades ela foi premiada com o mais belo encontro que alguém pode ter: aquele com o Criador de todas as coisas.

Obviamente do nosso lado fica a dor pela perda e a saudade que demora para cicatrizar. Mas uma situação dessas, como disse Davi Dumas, pastor que acompanhou a vida da querida Eliene, “creio que esta semente que hoje foi colocada na terra germinará e produzirá muitos frutos para a glória de Deus”. Referia-se ele à presença de mais de mil pessoas, nos cultos de sua despedida, que testemunharam e reconheceram o seu exemplo como mulher forte, batalhadora e fiel guerreira em diversas causas. Ela, sim, se pudesse enxergar seu epitáfio, certamente estaria satisfeita com seu combate.

O retrato de Eliene? Um sorriso. Sim, ela passava por problemas, ansiedades e dificuldades como qualquer outra pessoa. Talvez até mais pois constantemente fazia seus muitos problemas de outros. Mas a impressão era a que ela sempre deixava seu ego de lado para trazer alegria às pessoas. Sempre com um sorriso estampado, elegante no vestir e no agir, Eliene era uma mulher virtuosa. Nos momentos seguintes à notícia, pude resumir da seguinte forma o sentimento: “A tia Eliene era daquele raro tipo de pessoa que exala alegria. Seu sorriso sincero, suas constantes palavras de elogio e seu abraço sempre apertado deixarão um vazio irreparável em todos nós. A força devastadora da dor pela saudade só pode ser suprimida pela certeza de que ainda – muito em breve – estaremos juntos novamente para sorrir o sorriso que não tem fim”.

E eu? O que esperar de meu epitáfio? Há dois anos separei uma frase de Caio Fábio que li em algum lugar e decidi que seria ela a impressão em minha lápide: “Glauber ainda bem jovem foi pescado pelas redes do amor que ele percebera em Jesus e partiu seguindo a Jesus para sempre”. Dois anos se passaram e somente um chacoalhão divino como esse que recebi esta semana para me mostrar que ainda não sou digno de utilizar este epitáfio. Assim como a vida, também sou efêmero e frágil. Adiciono a estes minha incoerência e ambiguidade. Maldito homem que sou.

Decisões e conversões regadas somente com emoção raramente sobrevivem às tempestades do dia-a-dia. O chão da vida é árduo, sinuoso e impiedoso. Somente o amor pode fazer nascer perdão em meio ao ódio e paz em meio à dor. O conflito interior de cada pessoa acontece quando não há apelos emotivos, quando não existe música no fundo, quando há apenas o silêncio, o caminho e uma bifurcação. Escolher o sentido correto é resultado de decisão consciente e racional baseada em um escolha irrevogável: fazer o que é certo (vontade de Deus) e não aquilo que desejo (minha vontade).

Basta de prioridades invertidas. O dia de hoje é o tempo de decisão. O dia de hoje é o tempo de ajudar, de amar, de reconhecer. Exatamente como Eliene fez.

O dia de hoje é o tempo de perdoar.

Será que meu pretendido epitáfio serve para você?

Nenhum comentário.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *