As empresas de TI e o descaso com o Design e o Front-end

Em quase uma década no mercado de tecnologia da informação tive a oportunidade de trabalhar, conhecer e ouvir falar de diversos sistemas em várias áreas, como web sites institucionais, blogs e sites pessoais, plataformas de e-commerce, serviços online e sistemas corporativos. Divagarei sobre este último item mencionado: sistemas corporativos e sua relação com o Design e o Front-end.

Ao participar de entrevistas de emprego, após apresentar meu perfil profissional e aptidões, sempre achei interessante fazer perguntas sobre o projeto alvo de minha candidatura, afinal, assim como meus possíveis novos empregadores precisam me aceitar em sua empresa, eu, obviamente, também preciso querer estar lá. Infelizmente não foram poucas as vezes em que, ao indagar sobre as tecnologias utilizadas na camada final – a interface do usuário -, recebia como resposta célebres frases como “a carinha do site é simples”, “a gente cria umas tabelas e joga os campos nas linhas”, “perfumaria? nossa preocupação está no core da aplicação”.

Antes de prosseguir, cabe inserir neste texto um breve background daquele que vos escreve.

Sou um designer digital formado que “fugiu” da vocação original e tornou-se um desenvolvedor de sistemas, de forma que meus momentos de criação visual resumiram-se a trabalhos como freelancer e pequenos projetos pessoais. Com esta mudança, a maior parte do meu dia era preenchida por códigos e mais códigos e uma pequena fatia de meu tempo era dedicada à minha área original de formação, minha paixão, o Design.

A par deste background, o leitor deve imaginar como me sentia ao ouvir comentários como os citados acima. Não conseguia entender o porquê de as empresas que desenvolvem sistemas corporativos, utilizando tecnologias de ponta, frameworks robustos construídos sob a supervisão de uma arquitetura de software bem elaborada, simplesmente rejeitassem uma das partes fundamentais de qualquer aplicação que seria acessada por um navegador de Internet. Como resultado, sistemas que funcionam somente em versões específicas de navegadores e sistemas operacionais.

Enquanto por um lado acompanhava o trabalho minucioso e belo de agências de Design criando material impresso e digital, dentre eles sites e sistemas complexos com um cuidado impecável com cada elemento visual presente na tela, via as empresas de TI constantemente chutando as canelas das boas práticas de programação visual, simplesmente ignorando a necessidade de uma pessoa ou equipe focados na criação ou até mesmo desenvolvedores específicos no client-side, em que questões fundamentais do desenvolvimento web seriam definidos, como a usabilidade, acessibilidade e tudo que envolve a experiência do usuário.

Após ver e rever situações como esta, resolvi enumerar alguns pontos interessantes concernentes à importância da preocupação com a “carinha”, como os tecnólogos adoram chamar.

Sim. A interface vem antes de tudo.

A primeira impressão é a que marca. Um usuário não sabe em quantas camadas o sistema foi construído, qual banco de dados foi utilizado ou quantas linhas de código a aplicação possui. Ele simplesmente vê a interface do sistema. Por isso acredito que sistemas deveriam ser construídos a partir de interfaces de usuário, em que questões como usabilidade, acessibilidade e até regras de negócio seriam debatidas e solucionadas sem que haja necessidade de iniciar qualquer modelagem de banco ou criação de diagramas de classe. Os tradicionais da análise de sistemas devem achar um absurdo o que escrevi, mas, por experiência própria e leituras de casos de sucesso bem interessantes, cheguei à conclusão que o início pelo visual, pelo protótipo, é a maneira mais adequada de atingir-se o sucesso, evitando retrabalhos.

Se funcionar NÃO está bom.

Não basta funcionar e passar nos testes de navegação para constatar-se que um sistema web teve suas interfaces bem concebidas (tanto em seu visual como em seu código). Por que limitar um sistema a determinado navegador ou sistema operacional? É mais simples? Pelo contrário. Manutenções decorrentes deste tipo de decisão arquitetural passam a gerar problemas desnecessários que seriam facilmente evitados se a construção fosse feita sobre uma boa fundação.

Aprenda com os grandes.

Facebook, Twitter, Google, Yahoo e dezenas de outros sites de alcance mundial, acessados simultaneamente por milhões de pessoas, sempre apresentam soluções interessantes de navegabilidade, usabilidade e, principalmente, execução de seus projetos. Não é necessário concordar-se com tudo (pelo contrário), mas não deixam de ser referências muito interessantes. Não entrarei no mérito do significado destes termos e sobre como estes grandes lidam com a web mas, certamente, todas as soluções propostas por eles estão disponíveis para acesso de todos os especialistas e aspirantes à criação front-end. Sem falar nas mídias especializadas, divididas em revistas, blogs e fóruns em que desenvolvedores, designers e arquitetos de informação do mundo inteiro trocam experiências. Quem escolhe estagnar-se achando que seu conhecimento basta torna-se réu confesso. E as provas do crime são facilmente detectadas, bastando um simples acesso ao site e acessar a opção “Visualizar código-fonte”.

Classe desvalorizada.

Arquitetos de interface e desenvolvedores de front-end são subestimados pelas empresas de TI. Semana passada recebi, via RSS, uma oportunidade de emprego com a seguinte configuração: “Agência digital em plena expansão procura profissional dinâmico, agil e pró-ativo para integrar seu núcleo de design. Requisitos: HTML, CSS / TABLELESS, Dreaweaver; Diferenciais: Fireworks / Photoshop, Conhecimentos em PHP, Ajax / Javascript / Jquery, W3C, Semântica e Crossbrowser, WordPress // Salário: R$ 750,00 + VT + VR”. Será que fiquei pouco revoltado? Tenho até vontade de escrever aqui o nome da empresa que fez esta proposta irrisória, mas, como estou tomando um suquinho de maracujá, vou levantar a bandeira branca.

Nenhum editor WYSIWYG substitui estudo e dedicação.

Maldito Macromedia Dreamweaver, um dos responsáveis por fazer, muitos anos atrás, com que qualquer um que conseguisse gerar um arquivo .HTML dissesse ser programador de front-end. A inteligência destes programas ainda não possibilitou, pelo menos até a data desta publicação, a criação de códigos semânticos. Nunca vi um documento web criado por editores visuais – ou até mesmo por ferramentas complexas – que fosse coerente sem que um especialista se incumbisse pela qualidade do código enviado ao navegador. Já cansei de acessar páginas de sistemas de ERP baseados em web – de grandes empresas – e lidar com péssima navegabilidade e dezenas de erros de cliente (Javascript, CSS, HTML) e navegabilidade (informações desconexas, fluxos ininteligíveis etc.). Resumindo, o drag-and-drop destas soluções NUNCA SUBSTITUIRÁ a supervisão de um arquiteto de interfaces.

Deixe que o padeiro faça o pão.

Como mencionado no primeiro item desta enumeração, a interface raramente recebe a atenção devida. Por isso os encarregados por sua definição e execução são geralmente os programadores das camadas do servidor. Como venho do mundo Java, é comum acharem que um programador, por saber programar JSP, automaticamente tem a capacidade de construir interfaces, HTML, Javascript e CSS corretos. Não que não seja possível, mas, confesso, é difícil encontrar. A solução é simples: deixe as interfaces (criação e codificação) com os especialistas nesta área. Terceirize estes trabalhos com uma agência de criação web ou contrate uma equipe enxuta que será responsável por estas funções. Que tal agregar valor a seu produto fazendo o arroz com feijão? Por mais que a receita seja simples e qualquer funcionário da padaria poderia dar conta da tarefa, somente o padeiro, com sua experiência e especialidade, é capaz de deixar o pão com aquela consistência e sabor que o tornam irresistível. Como diz o adágio, “cada macaco no seu galho”.

Ao finalizar este post, ainda alimento a esperança de que meu campo de visão esteja restringido ao mundo profissional em que estou inserido. Quero acreditar que o cenário mencionado seja comum apenas às situações que vi pessoalmente nesta década de trabalho com TI e ouvi de colegas próximos e outros nem tão próximos. Trago comigo esta forte tendência ao otimismo. Caso o cenário estenda-se a uma fatia maior do mercado de tecnologia da informação corporativo, continuo a regar meu otimismo para que eu seja, muito em breve, testemunha de uma mudança de pensamento nesta relação entre as empresas desenvolvedoras de sistemas corporativos baseados na web e o Design.

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