Leite derramado, de Chico Buarque

Esta mais recente obra de Chico Buarque, vencedora do prêmio Jabuti de 2010 nos júris especializado e popular, acompanhou-me por alguns dias neste fim de ano e, assim como outras obras que me encantam, Leite derramado foi completa nos quesitos por mim considerados imprescindíveis em uma boa obra: diversão, reflexão e metanoia.

Leite derramadoA magia que os livros trazem consigo, ao fazer com que, paralelamente a seus enredos, cada leitor os digira de maneira única, permitiu que esta leitura me transportasse também a um leito de hospital, olhando para a estrada percorrida e perguntando-me se valeu a pena. E não é raro eu deparar-me com este tipo de apelo feito em livros, músicas ou filmes. Em uma breve busca à memória, vêm-me à mente a música Epitáfio, dos Titãs, a antológica frase que o capitão John Miller fala ao soldado James Ryan antes de morrer – Earn this, Earn it – em “O resgate do soldado Ryan”, a célebre imperativa de Renato Russo “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” e o décimo segundo capítulo do livro bíblico de Eclesiastes – “Lembre-se do seu criador nos dias da sua juventude, antes que venham os dias difíceis e antes que se aproximem os anos em que você dirá: não tenho satisfação neles”.

Pois é, a vida é assim mesmo. A velhice pode ser pior até que a própria morte.

Entretanto, felizmente o livro, apesar de exigir de mim tal reflexão, me fez rir e associar as facetas do protagonista a uma pessoa muito próxima a mim: meu próprio pai. Ele já tem seus setenta e poucos anos mas ainda não consigo vê-lo como um idoso, algo que negarei até sua morte, não importa quando ou quem perguntar. Aliás, nos últimos cinco anos sinto até que ele rejuvenesceu com a chegada de seus netos. Continua divertido e jovial como sempre (quem o conhece sabe do que digo), assim como Eulálio d’Assumpção é durante suas lembranças pueris. Mas a grande verdade é que ele diverte-se em contar piadas, em ser turrão às vezes, em contar suas aventuras dos tempos imberbes e em repetir histórias incansavelmente mesmo que, após perguntar “já te contei essa?” e receber uma resposta positiva, engata um “tudo bem, então ouça novamente”. Amo esse cara!

Agora, voltando ao livro, é fato que ele apresenta um retrato histórico da decadência social de uma tradicional família no Rio de Janeiro no decorrer de quase duzentos anos mas, para mim, o grande impacto é esta reflexão de minhas escolhas e decisões e o aprendizado que posso obter ao escutar aqueles que já viveram muito mais do que eu.

Chegando-me ao fim da jornada, quero lembrar que ri muito, que fiz muitos sorrirem, que amei muito e que, mesmo sabendo que me esquecerei de muitas histórias e repetirei outras dezenas de vezes, sinta genuinamente que tudo valeu a pena e que mais acertei do que errei, afinal, será somente um fim que precede um novo começo.

Divirta-se com alguns trechos do livro.

  • Mas abandonar uma criança ainda lactente, pequerrucha, de se carregar debaixo do braço, isso não entrava na cabeça de ninguém, não fazia sentido, não podia ser. Nem de um marido a mulher abre mão tão facilmente, ela o troca por outro, e às vezes o faz às pressas porque já vai a ponto de mudar de idéia. Assim como sofre para se desfazer de um vestido velho, quando renova o guarda-roupa. Para uma mãe largar sua criança, só mesmo se outra criança a arrastasse pela cintura com a força de um amante.
  • É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar.
  • E ao defrontar com a madame, só mesmo por um prodígio pude reconhecer, através de uma cachoeira de rugas, as feições de Anna Regina, irmã caçula de Matilde. Perguntei-lhe pela saúde dos pais, falecidos havia mais de trinta anos, e me abstive de mencionar suas irmãs mais velhas.
  • Dava até para vê-la, embasbacada de viajar em camarote matrimonial, na condição fajuta de madame Dubosc, com assento permanente à mesa do comandante. Seria exibida pelo amante nos salões de Paris, como séculos atrás uns índios tupinambás na corte francesa, encantaria a metrópole com seu maxixe, seu francês esdrúxulo e sua beleza mestiça. E tome bateaux-mouches, torre Eiffel, Mona Lisa, uns flocos de neve, em pouco tempo ela acreditaria ter visto praticamente tudo na vida. Aí o inverno se estenderia, os dias ficariam curtos, e Matilde, espírito simples, no Jardim de Luxemburgo se pegaria a sonhar com a pracinha dos brinquedos em Copacabana.
  • …em quatro fileiras bem fornidas, me passou o canudo de prata e disse, vai fundo, vovô. E fui mesmo, de um tiro só, foi muito mais fácil aspirar a coca que soprar as velas do bolo. Cheiraria as quatro, se a menina Kim não roubasse o canudo dos meus dedos. Debruçou-se por cima de mim para alcançar o estojo, e abaixo do Jesus Cristo tatuado vi o rego da sua bela bunda. E pela cava da sua camiseta pude ver seu seio direito até o bico marrom, ela que era de pele trigueira tinha um seio branco feito cocaína.
  • Digo aos senhores que conheci o vasto mundo, vi paisagens sublimes, obras-primas, catedrais, mas ao fim e ao cabo meus olhos não têm recordação mais vivida que a de uns cavalos-marinhos nos azulejos do meu banheiro.
  • Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.
  • Se não fossem meus tremores e câimbras nas mãos, eu preencheria de meu próprio punho, com caligrafia miúda, um caderno para cada dia vivido ao lado da minha mulher. Já depois que ela se foi, meus dias seriam de imenso papel para pouca tinta, extensos e vazios de acontecimentos.

Leite derramado
Chico Buarque
Companhia das Letras
2010
200 páginas
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1 Comment

  1. Denis

    8 anos atrás

    Livro adicionado na minha lista de livros para 2010.
    Aproveitando, faça um post sobre o livro “Pai Rico, Pai Pobre”

    Abs!

    Reply

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