Corrida #1: XTerra Night Trail Run Ilhabela (10k) – 18/09/2010

Algo dentro de mim dizia que não era a prova adequada para tornar-se a primeira de minha vida. Afinal, desde que comecei os treinos com o Leonardo Lima, da Running Health, em novembro de 2009, nunca fui um bom aluno. Apesar de me dedicar nos treinos dos sábados na USP, durante a semana raramente eu fiz dois treinos corretos. Em “longões” o máximo que havia feito eram 8km e com várias paradas no percurso, principalmente na subida do Matão. Mas três coisas fizeram com que eu encarasse esse desafio: a insistência do meu amigo Décio, que só faltou fazer a inscrição por mim (além de ter feito a reserva no hotel em Ilhabela), a persistência dos corredores amadores e profissionais que leio e acompanho pela web e também o fato de eu simplesmente amar esta ilha, por sua beleza natural (nunca vi nada igual) e pela linda história que ela traz consigo (o coração é testemunha).

Estes últimos dez dias em minha vida foram muito especiais para mim. Deve ser por isto que estes dois próximos posts terão um sabor de “Meu querido diário”, por mais que eu nunca tenha registrado meus dias em papel (isso era coisa de menina rs). Mas o que aconteceu de tão importante? Fiz um bem pra mim. Aliás, dois. Participei, em um intervalo de sete dias, das minhas duas primeiras provas de corrida: Os 10k do XTerra Night Trail Run Ilhabela e outros 10k no Circuito das Estações Adidas 2010 – Primavera.

Além dessa voz interior me dizendo que eu estava entrando numa fria, São Pedro ratificou a informação e encomendou – no capricho – um fim de semana nublado e cheio de chuva. Mas nada iria estragar o fim de semana agradável com o casal de amigos Décio e Adriana e, para melhorar, conhecemos um casal de Amsterdam super simpático que também nos proporcionou agradáveis momentos e bons papos para colocar o inglês em dia.

Chega a noite, a duas horas do início, fomos ao Cheiro Verde comer massa. Um prato com macarrão alho e óleo que poderia alimentar uma família. Encarei quase tudo e voltei para o hotel para me preparar. Checklist feito (tênis, roupa, chip no tênis, lanterna na testa, número da camiseta), agora era chegada a hora.

Excelente estrutura do evento, muita música nas caixas, luzes deixando a praia de Perequê ainda mais linda, gente bonita, fotos do “antes” com as amadas e ‘bora aquecer. Após alguns metros de rua adentro, chegamos à selva. Legal demais perceber todas as luzes apagadas e somente a iluminação vinda das lanternas nas cabeças dos corredores. Só com tanto barro, informação, sons e imagens para eu esquecer que eu teria de correr 10k morro acima… “D-e-z–q-u-i-l-ô-m-e-t-r-o-s?! O que você está fazendo aqui, seu louco?!” Essa era a pergunta que me fazia a cada escorregão, a cada poça de lama pisada, a cada respiração mais ofegante de cansaço. E o pior era que ainda nem tinha visto a primeira placa de sinalização de distância, ou seja, estava cansado antes de chegar ao primeiro quilômetro percorrido. De qualquer forma, a sensação de aventura era boa o suficiente para me manter aceso.

Corri com o Décio até o terceiro quilômetro, quando iniciei um diálogo:

– Vai lá, Décio… vou diminuir o ritmo agora. Pode seguir em frente.
– Nem a pau, vou junto com você até o quinto quilômetro porque tô ligado que você vai voltar se eu não te puxar.
– Te juro que sigo até os 10k. Pode ir.
– Certeza?
– Vai nessa

E foi então que o Décio sumiu na minha frente gritando “Selva!!” e eu implorando para achar postos de abastecimento a cada 300 metros (risos). Impressionante a sensação boa fornecida por um bom gole de água ou uma lavada na nuca numa hora dessas.

Saio do meio do mato, entro numa reta e, ao final dela, duas placas: 5k (vire à direita), 10k (siga em frente). Ó dúvida cruel. O que valia mais nesse momento: o meu merecido descanso ou a minha palavra de honra para o camarada? Claro que poderia ser um perdedor, mas loser é demais, não é mesmo? (se é que me entendem). Segui em frente e vamos-que-vamos. Mas é óbvio que não foi uma decisão fácil, afinal, logo em seguida vi subidas e mais subidas, as quais enfrentei com garra – pelo menos no começo -, mas tive de abrir mão da bravura e comecei a caminhar. Uma longa caminhada de alguns minutos, o corpo esfria e começo a sentir uma dor insuportável na planta do pé direito. As tornozeleiras estavam machucando demais. Sentei no chão e fui tirá-las. Perdi uns cinco minutos nessa paradinha (barro e lama endureceram os cadarços e o frio endureceu meus dedos) e, ao levantar, oh-oh, simplesmente não consigo andar devido a uma dor insuportável na planta do pé direito. O frio só piorou o que era apenas um incômodo. Passei por uma ambulância e o cara da equipe da prova perguntou se eu não queria parar. Hesitei mas disse que continuaria, nem que fosse me arrastando.

E assim arrastei-me num breu total pelas montanhas de Ilhabela. Sozinho na escuridão, só enxergava as luzes lá na praia (caramba, eu tinha subido bastante). Na minha cabeça passava que, a essa hora, o vencedor da prova estaria passando gel no cabelo após tomar um banho demorado e se preparando para ir ao show do Frejat e, por outro lado, minha mulher deveria estar procurando alguém com algum cão farejador para me buscar no meio do mato. Depois ela me confessou que era estranho… Chegavam homens, mulheres, jovens e velhinhos, até o Rubinho passou na linha de chegada e nada do marido aparecer (risos).

Vi uma placa com a marcação de 9k. Maravilha! Maravilha o catso! Ainda falta um quilômetro e eu aqui mortaço. Mas já que eu estava na chuva e também já estava encharcado, o jeito era correr. Eis quando chega o ápice da prova. O pessoal da equipe vem numa pickup dizendo: “Vamos lá, só faltam vocês!”. Rá! Eu eu cara correndo juntos, ambos com aquela cara de WTF, ele me diz:

– Ano passado eu fui bem. Esse ano não me preparei direito.
– Primeira corrida que faço na vida. Acho que escolhi errado.
– Só sei que o último lugar ninguém tira de mim.
– Veremos.

Rimos e continuamos a jornada até o final. Entramos na praia e, nessa hora, encontrei no meu pâncreas uma energia extra e utilizei meu KERS. Sorriso no rosto, medalha no peito, sensação de dever cumprido e uma baita dor que começou a ficar insuportável na planta dos pés (agora, nos dois). A loucura inicial transformou-se em plena satisfação.

XTerra Night Trail Run Ilhabela
Data: 18 de setembro de 2010
Local: Praia do Perequê, Ilhabela, SP
Distância: 10k
Tempo: 01:29:55
Velocidade média: 6,67 km/h
Pace: 8:60 min/km

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