Minha terra tinha palmeiras onde cantava o Sabiá

violencia_rio_de_janeiroManchetes deste início de semana noticiam a guerra entre traficantes e polícia no Rio de Janeiro. Quando a notícia é chamativa e envolve fatos inéditos ou quentes (neste caso o abatimento de um helicóptero da polícia e consequente morte de três policiais) o assunto toma proporções globais. Ainda mais quando o acontecimento se dá apenas alguns dias após a eleição da cidade maravilhosa como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Bandidos comemoram uma vitória cinematográfica ao mesmo tempo em que já temem os próximos passos da polícia, que usa palavras politicamente corretas para jurar vingança. A população, por seu lado, se encasula quando pode e tenta (sobre)viver no meio desta infindável guerra.

Não sou jornalista investigativo e muito menos um analista de estatísticas de ações efetuadas pelos governos federal, estadual e municipal nos últimos anos em prol da população carioca. Apenas a sensação que tenho é a de que nada muda e o assunto continua a ser tratado como de costume pelas autoridades, ou seja, enquanto a mídia abre grande espaço para o problema, elas mantêm o velho papo de “limparemos a sujeira“, ou “isso não se muda da noite para o dia” e ditam estatísticas de progressos (?!) no combate à violência. E basta o dólar se desvalorizar mais um pouco ou daqui a dois dias ser o último capítulo da novela das oito que aquela tão grande preocupação se esvai. Basta pressionar a descarga da memória pública.

O que sei é que sou um cidadão brasileiro, filho de carioca, quem passou praticamente todas as férias escolares de sua primeira década de vida nesta cidade hoje na mira das manchetes. Férias repletas de boas lembranças, não importa onde eu estivesse. Meados da década de 80, uma parte de minha família tinha uma linda mansão em uma tranquila rua de Jacarepaguá. Uma invejável alameda cercada por verdes morros, típico cenário do Salmo 23:2.

Assim como nas novelas de Manoel Carlos, minha família tinha seus núcleos. O núcleo “ZN” se distribuía entre uma adorável tia e sua família, quase vizinhos da família do Ronaldo Fenômeno em Bento Ribeiro, e meus avós e muitos tios espalhados em suas humildes casas nas ruas e morros da zona norte carioca.

Gostava muito de estar em Jacarepaguá, afinal, lá tinha piscina e uma quadra dentro de casa para me divertir com meus queridos primos mas sempre preferi estar junto de minha mãe visitando os parentes da zona norte. Assim, pegava o ônibus com ela e iniciava o delicioso passeio que passava por lugares com nomes legais e engraçados: Bento Ribeiro, Campo Grande, Meier, Pavuna, Rocha Miranda, Coelho Neto, Cascadura etc. Adorava ver meu tio Alcides cutucando a árvore para pegar jaca para comermos. Adorava subir nas lajes com meus primos para soltar pipa e depois descer e comer um apetitoso almoço na casa do tio Jorge. Jogar bola no asfalto com o chão pelando, sendo chamado de Paulistinha por vizinhos de meus primos. A casa de meu avô, no alto do morro Jorge Turco, era maravilhosa. Lá ficava a “Vendinha do Vico”, onde ele passava o dia inteiro tratando bem seus fiéis clientes, cuidando das dezenas de passarinhos que ele criava e me ensinando a separar o troco. Passava horas brincando com os gatinhos de minha avó e sempre que eu voltava para lá tinha um bichinho novo. Um cachorrinho quase morto que ela havia resgatado, uma gatinha prenha que não tinha onde achar repouso. As galinhas gordas que ele criava e sumiam quando eu voltava pra lá. Só depois de muito tempo descobri que elas tinham sido aquele almoço delicioso. Aliás, o mesmo aconteceu com aquele leitãozinho bonitinho que ficava por lá. Eu adorava tudo isso. Tios trabalhadores, todos! Apesar de, sim, já haver muitas histórias de criminalidade na região, o casal Álvaro e Alice criou muito bem todos os seus filhos e formou homens e mulheres de caráter. Que orgulho tenho disso!

Foram muitas férias assim, vividas intensamente por um menino que soube enxergar felicidade no meio da riqueza e no meio da pobreza. Gente digna. Gente boa de Deus que era feliz e celebrava a vida diariamente.

Mas o tempo passou e, no início da década de 90, em mais uma viagem de fim de ano com meus pais e irmão para visitar os avós, uma imagem diferente. Ao ver um menino poucos anos mais velho que eu, tive um diálogo com meu pai mais ou menos assim:

– Pai, ele está com uma arma de verdade?
– Filho, fique quietinho aí no banco. Sente-se direito.
– Mas é de verdade mesmo?
– Sim, filho. Agora fique quietinho.

Percebi em meu pai um semblante diferente, pesado. Em poucos instantes meu avô saiu, nos ajudou com as malas no carro e nos “protegeu” para entrar em sua casa. Em minha ingenuidade não poderia imaginar o que se passara na cabeça de meu pai. Com seus dois filhos ali, um carro novo com placa de São Paulo, bandidos a alguns metros do carro… Este episódio se passou há mais de quinze anos e foi a última vez em que a família viajou junta para visitar meus queridos avós. Onde estará hoje aquele menino com a metralhadora e várias caixas de fogos de artifícios próximas a ele? Se eu considerar as estatísticas as previsões são fatais, assim como fatal foi o câncer que matou meu querido avô.

Durante almoço com colegas de trabalho nesta semana assistimos na televisão às cenas do helicóptero da polícia caindo em chamas. Ao invés de apenas comentar o fato ocorrido e a realidade da insegurança pública no Rio de Janeiro indaguei à mesa: “qual a solução para isso?”

As autoridades atuais insistem em culpar governos anteriores e louvar as conquistas de sua gestão. Eu só vejo a mesma coisa que via desde a década de 80, quando era apenas um garoto. A diferença é que a vida nos morros fica sempre um pouco pior. Vejo que o vizinho de meu primo que me chamava de Paulistinha morreu novo, fuzilado por traficantes. Aliás, ele tornou-se um deles. Vejo falta de oportunidades, vejo decisões erradas em todos os lados, vejo vítimas se transformando em algozes e vice-versa. Vejo que se buscar no Google pelo nome do morro morada de meus avós só encontrarei notícias ruins. A polícia teme subir, a população local teme descer e os traficantes descem e sobem livremente. Nenhuma mudança a curto nem a longo prazo.

É difícil, muito difícil, para a população entender o que se passa na vida das pessoas que vivem no meio desta guerra civil. Um conflito entre suas raízes e as possibilidades externas, a falta de oportunidades, o descaso, o medo de sair de casa. As decisões erradas. As perdas e as consequências. Fugir ou ficar? São tantas cartas descartadas. Infelizmente não tenho respostas. Pedro Paulo Soares Pereira, o Mano Brown, apresentou um lado da história em “A fórmula mágica da paz“. Fez-me refletir mas, assim como ele, ainda não encontrei esta fórmula mágica.

As verdes palmeiras deram lugar a gris barracos. O som do sabiá deu lugar à sequidão de tiros cujo destino é a dor. A canção do exílio é entoada no imperfeito por pessoas exiladas dentro de seu próprio lar.

Só sei que faz quinze anos não posso visitar minha avó.

2 Comments

  1. Douglas

    9 anos atrás

    Talvez se todos começassem a fazer a mesma pergunta: “qual a solução para isso?”
    De tanto fazê-la, comece a entrar no subconciente e crie um sentimento que realmente algo precisa ser feito já, incomodando cada pessoa para que faça algo para mudar. E tudo começa com algo simples, como por exemplo, ensinar a não jogar lixo na rua, parece insignificante e fora do contexto, mas se todos forem educados nas coisas simples, é mais facil educar para as coisas mais complexas, como respeito ao proximo.
    Pois não somos meros expectadores, somos participantes.

    []’s
    Douglas ECC

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  2. Thiago Leite

    9 anos atrás

    “Evil happens when a lot of good people don’t do anything.” – Martin Luther King Jr.

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