A menina que roubava livros, de Markus Zusak

a-meninas-que-roubava-livros“Os seres humanos me assombram” – a morte.

Um excelente livro, com uma história comovente na qual a vida da menina Liesel Meminger é contada pela morte. Além do intrigante desenvolvimento da narração dos fatos que envolveram o período de 1939 a 1943 na vida da pequena Liesel, o autor apresenta o significado da 2ª Guerra Mundial para os moradores da pequena cidade de Molching, situada próxima de Munique, a caminho do campo de concentação de Dachau.

A leitura deste livro foi enriquecedora, uma vez que pude relembrar minhas antigas leituras referentes ao Terceiro Reich e suas consequências nefastas para o mundo. Pude repensar o sofrimento dos alemães que não simpatizavam com as palavras e não concordavam com as atitudes ou suportavam a loucura de Adolf Hitler. Pude chorar as lágrimas de perda de mães, pais e filhos.

Mas também pude ver a beleza na luta pela vida. A valorização do simples como o suficiente para a alegria em meio à tristeza. Pude perceber que é possível não ter nada mesmo tendo tudo e que o seu inverso é sublime. Liesel é prova disso.

Quanto aos quotes da história, gostei da inserção da música, das cores e sabores, da admiração de Rudy Steiner por Jesse Owens e de seu deboche com Hitler e dos sonhos de vitória em meio aos pesadelos de Max Vandenburg.

“Pessoalmente, gosto do céu cor de chocolate. Chocolate escuro, bem escuro. As pessoas dizem que ele condiz comigo. Mas procuro gostar de todas as cores que vejo o espectro inteiro. Um bilhão de sabores, mais ou menos, nenhum deles exatamente igual, e um céu para chupar devagarinho. Tira a contundência da tensão. Ajuda-me a relaxar.”

“Quando chegou a Molching, Liesel tinha ao menos uma vaga percepção de estar sendo salva, mas isso não servia de consolo. Se sua mãe a amava, por que deixá-la na porta de outra pessoa? Por quê? Por quê? Por quê? O fato de ela saber a resposta – nem que fosse no nível mais elementar – parecia não vir ao caso. Sua mãe estava sempre doente e nunca havia dinheiro para consertá-la. Liesel sabia. Mas isso não queria dizer que tivesse de aceitar. Por mais que lhe dissessem que a amavam, não havia nenhum reconhecimento de que a prova disso fosse o abandono.”

“Toda noite Liesel tinha pesadelos (…) Possivelmente, a única coisa boa advinda desses pesadelos era que eles traziam ao quarto Hans Hubermann, seu novo papai, para acalmá-la, acarinhá-la.”

“A Olimpíada. Os jogos de Hitler. Jesse Owens acabara de completar o revezamento 4×100 e conquistara sua quarta medalha de ouro. A história de que ele era subumano, por ser negro, e da recusa de Hitler a lhe apertar a mão foi alardeada pelo mundo afora. Até os alemães mais racistas ficaram admirados com os esforços de Owen, e a notícia de sua proeza vazou pelas brechas.”

“Os alemães adoravam queimar coisas. Lojas, sinagogas, Reichstags, casas, objetos pessoais, gente assassinada e, é claro, livros.”

“Era uma menina com uma montanha para escalar.”

“Você poderia  dizer que as coisas foram fáceis para Liesel Meminger. E foram mesmo, em comparação com Max Vandenburg. É claro, o irmão praticamente morrera em seus braços. A mãe a havia abandonado. Mas qualquer coisa era melhor do que ser judeu.”

“Em anos vindouros, ele seria um doador de pão, não um ladrão – mais uma prova de como o ser humano é contraditório. Um punhado de bem, um punhado de mal. É só misturar com água.”

“A menina começou a soluçar de um modo tão incontrolável, que o pai morreu de vontade de puxá-la para si e abraçá-la apertado. Não o fez. Em vez disso, agachou-se e a fitou diretamente nos olhos. Soltou suas palavras mais mansas até então: – Verstehst du mich? A menina fez que sim. Chorou e, nessa hora, derrotado, abatido, o pai a abraçou em meio ao ar de tinta e à luz de querosene. – Eu entendo, papai, entendo.”

“[Rudy] teria ficado contente em vê-la beijar seus lábios poeirentos, atingidos pela bomba. É, eu sei. Na escuridão de meu coração tenebroso, eu sei. Ele teria adorado, com certeza. Viu? Até a morte tem coração.”

“Max Vandenburg, o judeu, pôs-se de pé e ficou ereto. Sua voz vacilou. Um convite. – Venha, Führer – disse, e, dessa vez, quando Adolf Hitler partiu para seu adversário judaico, Max se esquivou e o fez mergulhar no canto. Esmurrou-o várias vezes, sempre visando uma coisa só. O bigode.”

“Assim que Rudy desabou num canto e salpicou lama de sua manga na janela, Franz disparou-lhe a pergunta predileta da Juventude Hitlerista. – Em que dia nasceu o nosso Führer, Adolf Hitler? Rudy ergueu os olhos: – Perdão? A pergunta foi repetida e o estupidíssimo Rudy Steiner, que sabia perfeitamente que tinha sido em 20 de abril de 1889, respondeu com a data do nascimento de Cristo. Inclui até Belém, de quebra, como uma informação adicional.”

“- Por favor, Max, não morra! Ele era o segundo boneco de neve a derreter diante de seus olhos, só que esse era diferente. Era um paradoxo. Quando mais frio ficava, mais derretia.”

“No porão, ao escrever sobre sua vida, Liesel jurou que nunca mais tomaria champanhe, pois ele nunca teria um sabor tão gostoso quanto naquela tarde quente de julho.”

“Havia estrelas-de-davi coladas em suas camisas, e a desgraça prendia-se a eles como que por designação. (…) A seu lado, os soldados também passavam, dando ordens para eles se apressarem e pararem de resmungar. Alguns desses soldados eram apenas meninos. Tinham o Führer nos olhos.”

“É lícito dizer que, em todos os anos do império de Hitler, nenhuma pessoa pôde servir ao Führer com tanta lealdade quanto eu. O ser humano não tem um coração como o meu. O coração humano é uma linha, ao passo que o meu é um círculo, e tenho a capacidade interminável de estar no lugar certo na hora certa. A consequência disso é que estou sempre achando seres humanos no que eles têm de melhor e de pior. Vejo sua feiúra e sua beleza, e me pergunto como uma mesma coisa pode ser as duas. Mas eles têm uma coisa que eu invejo. Que mais não seja, os humanos têm o bom senso de morrer.”

“Seus cretinos, pensou. Seus cretinos encantadores. Não me façam feliz. Por favor, não me saciem nem me deixem pensar que alguma coisa boa pode sair disso. Olhem para meus machucados. Olhem para este arranhão. Estão vendo o arranhão dentro de mim? Estão vendo ele crescer bem diante dos seus olhos, me corroendo? Não quero ter esperança de mais nada. Não quero rezar para que Max esteja vivo e em segurança. Nem Alex Steiner. Porque o mundo não os merece.”

A menina que roubava livros
Marcus Zusak
Editora Intrínseca
2007
494 páginas
Comprar livro

3 Comments

  1. Letícia

    10 anos atrás

    Parece bem interessante, amor! Tem um toque de poesia na escrita, né? Lembrei até do Petit Prince e do meu jeito de escrever. Continuo acompanhando seus posts, admirando-os e aprendendo com eles.
    Beijo enorme.
    ILD!

    Reply
  2. Glauber Rodger

    10 anos atrás

    Oi 🙂 Gostei de seu comentário! Apesar do assunto trágico, tem muita beleza nele. A morte dá uma de Pequeno Príncipe mesmo (risos) Five stars rsrsrs Outro beijão pra você. Daqui a pouco nos vemos.

    Reply
  3. Patricia

    10 anos atrás

    É um livro encantador, o li duas veses, não é claro que eu não tenha entendido na primeira, mas, eu sou apaixonada pela segunda guerra mundial e pela leitura não tanto pela parte história mas muito pela parte filosófica. O melhor dos 56 livros que já tive o prezer de ler.

    Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *