Bossa Nova: amor absoluto

João Gilberto e Tom Jobim

Ouvir Bossa Nova é bom e saudável e, não – para os que insistem em falar mal dela – é preciso estar apaixonado para se deliciar com as curvas do violão de João Gilberto, com as dissonâncias de Jobim e as poesias de Vinícius. Calma, tem muito mais gente nessa mistura, mas para o leigo o mais comum é fazer esse triângulo. A paixão vem depois, consequência inevitável.

Como grande adepto do ritmo, sempre me vejo pensando em tudo que se passou em todo aquele tempo, desde o início de algo que parecia que não ia virar até as grandes apresentações. E todas as imagens, sons e diálogos dessas minhas viagens pretéritas são – pasmem – construídas apenas em minha cabeça, pois vim das as caras ao mundo um pouco depois. Digamos, trinta anos depois. Enfim, nem tudo pode ser como queremos. Mas isso prova que o gap entre gerações não é suficiente para separá-las totalmente. Enfim, esses trinta anos não me impediram de conhecer e desfrutar de tanta maravilha em um lugar só. A Bossa Nova é como Pelé, só houve um e jamais haverá outro igual. É daquele tipo de fenômeno raro da astronomia que acontece a cada dois milhões de anos-luz.

É como parar pra pensar na onisciência de Deus. Quer saber por que vale a analogia? Só no Rio de Janeiro, com a Bossa Nova, é que se viu um agrupamento de gênios da música e poesia trabalhando juntos. Gênios mesmo. Gênios daqueles que a medicina comprova, daqueles que tem um pouco (ou muito) de louco, daqueles gênios que são gênios.

João Gilberto e Dick Farney têm ouvido absoluto. Tom Jobim não tinha ouvido absoluto, mas sua sensibilidade musical era tanta que seu braço arrepiava quando encontrava um acorde. O violão de Baden Powell era a extensão de seu braço. As letras de Carlos Lyra, Roberto Menescal, Tom Jobim, Newton Mendonça e Vinícius são pura arte.

Grandes compositores, intérpretes e instrumentistas como Lúcio Alves, Billy Blanco, Maysa, Ronaldo Bôscoli, Elis Regina, João Donato, Nara Leão, Eumir Deodato, Luís Carlos Vinhas, Luizinho Eça, Milton Banana e Edu Lobo aumentam a lista dos grandes nomes da BN.

A onda da Bossa Nova cresceu e buscou novos mares. Mas logo todos os mares queriam essa onda e então o mundo a abraçou. Coitados dos que só se prezavam por falar mal, afirmando que era uma cópia mal feita do Jazz, que não era música… A BN era tão bossa e tão nova que foi infeitiçando quem a ouvisse. Sammy Davis, Lena Horne, Stan Getz Charlie Bird, Tony Bennet e sem falar em Frank Sinatra (esse também com ouvido absoluto) que ligou para Tom Jobim e o convidou para gravar um disco.

Enfim, só me resta contemplar, contemplar e contemplar. Nada como ouvir a voz e violão de João Gilberto batendo um papo como em “De conversa em conversa” ou fantasiando como em “Vivo sonhando”. Outro dia o Zuza Homem de Mello disse que João Gilberto é capaz de fazer de “Parabéns a você” uma música sensacional. Quem já ouviu João ao vivo sabe o que Zuza está falando.

Ultimamente tenho ouvido falar mais em Bossa Nova. Chega de Saudade! Não aguentava mais ouvir tanto lixo musical. Sempre tem alguém que ainda sabe o que é boa música. A estes, meus sinceros agradecimentos. Vale citar Fernanda Porto, Celso Fonseca, Ronaldo Bastos, Bebel Gilberto, Maria Rita, entre outros. Aos que ainda se encontram conosco e continuam sempre muito bossa nova, minha veneração. João Donato, Roberto Menescal, MPB4, sem falar em João Gilberto. Ah João… Outro dia fui a um show dele e na semana anterior ao evento ficava pensando em todos aqueles mistérios que falam a respeito dele. Desde quando um cantor hipnotizaria alguém com sua voz? Tudo bem que João é João, mas aí é demais. O Tomé dentro de mim insistiu em esperar. Chegado o grande dia, nada de especial aconteceu. Sentado, observando, ouvindo o Joãozinho cantar e tocar aquele violão, reclamar um pouco do som… nada demais.

Só quando cheguei em casa percebi que durante o show não tinha conseguido prestar atenção em nada que não fosse João Gilberto. Palmas, assobios, luzes… não tinha ouvido nem percebido nada. Somente aquela voz que, mesmo um pouco diferente pelo efeito dos anos, manteve a mesma suavidade, leveza e a magia de sempre. E tudo isso só com apenas um banquinho e um violão. É experiência pra contar para os netos. Viva a Bossa Nova!

A velha e boa Bossa Nova voltou mais uma vez para ficar por toda a vida. Ops, acho que Vinícius já disse isso um dia. Verdade.

Escrevi este texto em 2003, ano em que dediquei-me a meu trabalho de gradução em Design. Ano em que fiz uma viagem rápida – entretanto inesquecível – ao Rio de Janeiro para conversar com Cesar Villela e Ruy Castro e viver uma noite de sábado em Ipanema. Ouvi Billy Blanco cantando em frente à Toca do Vinícius e vi o Carlinhos Lyra passeando de camiseta regata por lá. Ano em que fui hipnotizado por João Gilberto em sua apresentação na inauguração do Tom Brasil, em São Paulo. Ano em que decretei amizades para a vida.  Um ano bossa nova.

2 Comments

  1. maria bazaia

    9 anos atrás

    Olha eu e meu marido temos verdaeira adorção pela bossa nova e estaremos no RJ no próximo maio e gostariamos de saber onde poderemos escutar bossa no Rio?

    Sim amei sei artigo abraços Maria Bazaiz

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    • admin

      9 anos atrás

      Olá, Maria. Fico feliz que tenha gostado do texto. A Bossa Nova sempre foi e continuará sendo apaixonante! Minha felicidade transforma-se em uma leve inveja ao saber de sua viagem (risos). Espero que você aproveite de forma magnífica as belezas desta linda cidade. Minha principal dica é recomendar-lhe começar sua viagem indo à Toca do Vinícius (Rua Vinicius de Moraes, 129 – Ipanema. Site: http://www.tocadovinicius.com.br/) e lá conversar com o Carlos Alberto. Ele é pessoa fantástica e grande conhecedor da BN. Diga que o Glauber, do Bossa Ever Nova (bossaevernova.com) recomendou a visita ao lugar.

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